Da Serra do Amolar, no coração do Pantanal Sul, a Campo Grande, capital do estado: essa foi a jornada de Waldemir Pereira Rosa na apicultura.

 

Waldemir conta que começou a trabalhar em 1990, há trinta e quatro anos – um ano antes da filha nascer. O interesse pelas abelhas veio de uma história engraçada: estava indo trabalhar numa fazenda e um colega muito falador lhe disse que lá tinha muita abelha. Waldemir chegou lá animado para ver as colmeias, mas descobriu que não havia por lá nenhuma caixa ou criação, só algumas abelhas soltas, na mata. Dessa primeira decepção, surgiu a determinação, e Waldemir se comprometeu a começar um apiário. 

 

Conta que começou pequeno, com dez caixas e foi se apaixonando. Por vinte anos, trabalhou no Pantanal com a produção de mel. Morava em Corumbá e pretendia fazer zootecnia, mas acabou priorizando o trabalho com as abelhas, já que não tinha tempo para as duas coisas. Hoje, defende a educação para todos que têm condição: “temos que educar os filhos o máximo que pudermos”, afirma “conhecimento não ocupa espaço”. E conhecimento é algo que Waldemir tem muito, inclusive sobre a história da apicultura da espécie com a qual trabalha: durante a entrevista, compartilha a curiosidade de que a abelha Apis, aquela amarelinha que veio da Europa e da África e se estabeleceu por aqui, não foi trazida, a princípio, pelo mel. “As pessoas consumiam muito o mel das nativas, mas os jesuítas e outras pessoas da época precisavam de muitas velas, e as nativas não produzem cera desse jeito”, conta, se referindo ao fato de que a cera produzida pelas abelhas nativas é mais escura e produzida em menor quantidade, não supria a demanda por velas. 

 

Assim, com muita dedicação e conhecimento do ofício, Waldemir trabalhou com abelhas Apis por vinte anos no Pantanal, mas afirma que não foi fácil: no regime de secas e cheias, muitas vezes o acesso aos apiários pode ser difícil, há lugares que só se acessa de barco e é preciso carregar galões de combustível, pois não se acha postos de gasolina. Há cerca de dez anos, Waldemir veio para Campo Grande para ajudar um amigo no trabalho, e acabou ficando por aqui. Nos arredores de Campo Grande, conta, há mais variedade de lavouras e plantações para produzir mel, e não depende apenas das floradas silvestres e dos regimes de secas e cheias. Apesar disso, a paixão pelo Pantanal permanece, e Waldemir lamenta o descaso que muitos têm com o bioma: “a natureza não tem preço, e tudo o que fizemos com a natureza até hoje não se recupera”, afirma. Quando jovem, pegava muita abelha na beira do Rio Paraguai, trabalhando em parceria com a Igreja Batista, e lembra que, quando moleque, na época de pesca, atravessava o rio e pegava cinco peixes-pintado com mais de 85 centímetros. “Hoje, se pegar um é sorte, o barco bate em banco de areia no meio do rio. Alguma coisa está errada”. Também não gosta de caça e trabalha numa região onde tem muito pato: “quando o pessoal fala de matar pato (pra comer), eu falo: mas quem vai fazer? Eu não faço o pato”.

 

Esse respeito e observação atenta da natureza sempre guiou sua prática na agricultura, inclusive a respeito do Tatu-Canastra, um gigante que às vezes pode trazer prejuízo para os apicultores: “Não quero matar o tatu. Não quero matar nem cobra, quem dirá o tatu. Se você mata, tem outros por aí. Não resolve o problema e vai sacrificar o bicho à toa”, afirma, e conta que foi utilizando métodos de mitigação para evitar que o animal alcance a caixa das abelhas e coma as crias. Hoje, Waldemir tem cerca de trezentas colmeias, e usa o cavalete, mas em alguns lugares conta que o método dá muito trabalho, pois as caixas ficam muito altas e ele precisa encostar o caminhão para trabalhar. Assim, está usando a criatividade e a experiência para testar outros métodos – que vão desde usar telas a óleo queimado e creolina nas caixas antes das abelhas chegarem, para talvez despistar o olfato do tatu. 

 

Sobre o futuro, Waldemir ressalta a necessidade de voltar os olhos para o meio ambiente: “eu não vejo horizonte próximo. Eu sinto que tô no meio do mar e só vejo nuvens. O pessoal fala que eu sou muito pessimista, eu sou é realista”. Vê o desmatamento e os agrotóxicos como os maiores desafios, afirmando que chegou até a perder colmeias pelo uso excessivo de veneno nos arredores. Mas mesmo com todas essas decepções, continua firme no trabalho, com dedicação total à sua história e à apicultura: “tava novinho quando fui pro Pantanal. Gastei toda minha juventude lá, mas não me arrependo”, conta. Hoje, com 62 anos, continua cuidando das suas 300 colmeias, e continua dedicado a desenvolver novos métodos para coexistir com o tatu.

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