“Quer mel?” A jornada que começou nas feiras do Pará e acabou na vanguarda da associação de apicultoras de Paraupebas: Quando criança, Rosemi ia à feira com a mãe, sentava-se num tapete com uma bolsinha de dinheiro e ajudava a vender tudo o que era produzido na fazenda da família. O esforço era recompensado – a mãe deixava ela ficar com um pouco do dinheiro, Rose conta – e deixou um legado mais profundo que algumas notas de dinheiro: além da memória afetiva, todo esse aprendizado familiar ajudou Rose a se tornar uma das maiores apicultoras de Paraupebas. 

Oficialmente, Rosemi trabalha há sete anos na apicultura, mas essa história é na verdade muito mais antiga, com profundas raízes familiares: o pai começou primeiro, e foi um dos primeiros apicultores na região. Rose o ajudava, mas conta que, novinha, não tinha paixão pela apicultura – achava até perigoso. Depois de um tempo, veio a vontade de conquistar o próprio salário e a independência, e Rose se aventurou na cidade, trabalhando principalmente como vendedora em feiras, como havia aprendido com a mãe. Depois da experiência, surgiu a oportunidade de voltar para a propriedade no campo da família, dessa vez com uma renda a mais. Foi assim que Rose voltou a mexer com apicultura – primeiro, revitalizando os apiários do pai que, por questões de saúde, já não estavam em tão bom estado, depois com suas próprias expansões.

Foi dessa conexão entre a apicultura e sua vivência em feiras que surgiu o nome do negócio: Ke Mel, pois era com essa pergunta (“quer mel?”) que Rosemi vendia o produto da família nas feiras do Pará. Veio também sua própria paixão pela apicultura, a atividade antes perigosa que se tornou mais que um ganha-pão: se transformou na principal ferramenta para a tão sonhada independência financeira e também uma porta para a conexão com a comunidade. 

Rose conta que o pai era muito bom em produzir mel, mas não era tão bom em escoar os produtos – e foi aí que entrou a experiência da filha. Além de ajudar a vender o produto, Rose construiu pontes. Revitalizou as associações locais, muitas delas constituídas primariamente por mulheres apicultoras e meliponicultoras, e dessa forma foi uma pedra fundamental no cenário da apicultura em Paraupebas.

Rose também foi a primeira apicultora da região Norte do país a receber o selo do Canastras & Colmeias, que certifica a convivência harmoniosa com o tatu-canastra, embora essa jornada também tenha sido cheia de percalços: Rose conta que, no começo, o tatu chegou a desmotivá-la da criação das abelhas. Chegavam lá e estava tudo destruído, as caixas quebradas no chão, e não sabiam o que era. Acreditaram até que poderia ser ação de pessoas mal intencionadas, até que o ICMBio emprestou uma câmera que pegou o tatu no flagra. Sem saber exatamente como resolver o problema, Rose foi atrás de informação – e assim recebeu auxílio da Vale, que contribuiu com um modelo de cavalete que não funcionou no início, mas que depois ela foi ajustando. Como cavaletes muito altos são difíceis de trabalhar – e o tatu-canastra, na região Norte do país, pode alcançar objetos que estejam até um metro e meio acima do solo – Rose eventualmente optou por cercar o apiário. Apesar disso, ainda tinha perdas eventuais para os bichos da mata: o tamanduá e outros animais escalam, e foi aí que veio uma ideia inovadora: o esposo, Silvarco Batista, sugeriu deixar uma caixa fora do apiário cercado, para alimentar os animais. Assim, com essa contribuição harmoniosa, as perdas diminuíram muito. 

“Quando você trabalha com mel, você aprende a gostar da natureza”, Rose afirma, contando que antes não gostava muito de animais como cobras e morcegos, mas hoje aprendeu a importância e a conviver com esses bichos. O esposo foi outro que passou por essa jornada: quando se encontraram na cidade, Silvarco trabalhava em serraria e vivia de cortar árvores. Hoje ele refloresta a propriedade da família – e sugere deixar a eventual caixa de abelhas fora do apiário, para desviar o interesse dos animais silvestres da área cercada. 

A propriedade hoje é rota turística, e recebe escolas de educação infantil e cursos de educação superior. 

Agora que o tatu não é mais um inimigo, Rose lida com outros desafios: conta que recentemente perderam dezesseis colmeias para veneno aplicado por drone. Chegou para fazer uma denúncia, mas a secretaria do MMA local está sucateada e a denúncia acabou não sendo realizada. Agora, está tentando reunir um coletivo para ir à defensoria pública. Reclama que o poder público não é preparado para trabalhar junto ao apicultor, que ainda é visto como um produtor desimportante, e os órgãos públicos têm pouca informação sobre a atividade: numa ocasião, a fiscalização sanitária chegou a inquerir Rose rudemente, perguntando a ela o que fazia com os resíduos da criação de abelhas. Rosemi teve que explicar que a apicultura, ao contrário da suinocultura e avicultura, não produz resíduos tóxicos, pois até a cera das abelhas é reutilizada. 

Até o público pode sofrer com a falta de informação: Rose ressalta que o mel verdadeiro cristaliza sim, e a busca por produtos que não cristalizem pode beneficiar os falsários. 

A preocupação com o descaso com a natureza e com a apicultura é uma luta constante, mas Rosemi e a família continuam nessa batalha contra a ignorância com muita paixão: “sou muito feliz, muito grata à natureza e às pessoas que vieram para ensinar”, afirma, com um agradecimento adicional: “o tatu e o tamanduá me ensinaram muito”.

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