Severiano trabalha há oito anos com as abelhas, mas essa história é muito mais antiga e profunda que isso – história para lá de década. 

Ele conta que, antes da apicultura, trabalhou com construção civil na cidade de Brasilândia, mas a área passou por uma crise e ficou ruim de serviço. Nesse momento o filho de Severiano sugeriu: “Por que você não vai trabalhar com o vô?”

O vô em questão, Cícero Vasconcelos, pai de Severiano, já atuava na apicultura. Começou na criação de abelhas a partir de uma decepção: foi comprar mel e era falso, e assim decidiu ter a própria produção que entregasse mel legítimo, de qualidade. Isso foi há mais de vinte anos, e, desde então, Cícero fundou a Associação Brasilandense de Apicultores que contribuiu muito para o desenvolvimento da atividade na região: hoje, estão na luta para ter a própria casa de mel, que permitiria o processamento e o escoamento do produto, tudo através da colaboração dos apicultores locais e do pioneirismo de Cícero. 

Assim, quando Severiano deixou a construção civil para investir na apicultura, teve uma base firme com a qual aprender, apesar de ter feito tudo com muita independência: “comprei minhas próprias caixas, meu pai só passou o conhecimento”, conta. 

A experiência familiar foi muito importante nesse percurso porque, segundo Severiano, a aprendizagem na apicultura pode ser complicada: “às vezes é difícil achar alguém que ensine. Não sei o que é, se têm medo, se cada um faz de um jeito diferente, mas aprendi mais foi com o pai”. E tem dado certo: Severiano começou com vinte caixas, e, mesmo tendo perdido muitas abelhas no ano passado, hoje conta com cinquenta colmeias e foi escolhido como representante da Associação Brasilandense de Apicultores, seguindo os passos do pai, que foi seu fundador.

Sobre o tatu, Severiano conta que conhecia as várias espécies de tatus de pequeno porte – como o galinha, o peba e o bolinha, que também recebe o nome de tatu-de-rabo-mole pequeno – mas desconhecia o canastra. Foi descobrir sobre a existência do bichão depois de uns anos de atuante na apicultura, porque o animal foi no apiário de um colega, e o projeto Canastras & Colmeias fez uma visita na região e até colocou câmeras para registrar o tatu em flagrante. 

Um tempo depois, o canastra chegou a cavucar no apiário de Severiano, mas não causou problemas: o cavalete das caixas já era alto, uma tradição antiga do pai que de repente fez muito sentido para Severiano – afinal de contas, é melhor prevenir que remediar. 

Mas só porque, até o momento, tem existido uma política de boa vizinhança entre Severiano e o canastra, não significa que não existam outros desafios na apicultura: “tudo está caro e as parcerias são cada vez mais difíceis”, relata. Recentemente, uma grande empresa de eucalipto da região, sob a bandeira de sustentabilidade e compensação de impactos, prometeu que os apicultores da associação logo receberiam autorização para colocar as colmeias em regiões de cultivo sob seu controle, mas – até o momento da entrevista – múltiplos entraves burocráticos fizeram com que a gigante da celulose não houvesse cedido as áreas. O agravante é que o momento é crítico para os apicultores: é florada do eucalipto e época de enxameação. Se a empresa só cumprir o acordado ao fim da florada e depois da época da captura e divisão de colmeias, os apicultores sairiam prejudicados do acordo, muito trabalho tendo sido em vão. 

Apesar dessas dificuldades, Severiano tem esperanças para o futuro da apicultura: gostaria que fosse vista de forma profissional, não como um hobbie, e que o mel fosse mais valorizado como ingrediente, em vez de ser consumido apenas como remédio. Mas, acima de tudo, gostaria que houvesse mais interesse dos herdeiros dos apicultores em, assim como ele, assumir o manto do conhecimento e dar continuidade à profissão da apicultura.

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