No interior de Mato Grosso do Sul, em um remanescente de Cerrado cercado por silvicultura, há uma casa colorida, toda feita de materiais recicláveis, crivada de artesanatos e obras de arte. Mais que uma casa, é também uma escola e centro de treinamento, onde os vizinhos de Sebastião podem frequentar oficinas de economia criativa, agrofloresta e agricultura familiar, em parceria com o SENAR e, recentemente, outras instituições, como o ICAS. Acima de tudo, essa casa espaçosa, de varandas acolhedoras e cercada por natureza, é um lar cuidadosamente construído tijolo a tijolo pelo próprio Sebastião, junto com sua esposa, Rose.

 O caminho até esse lar foi cheio de percalços: Sebastião tem 39 anos e nasceu na Bahia, mas ainda menino mudou-se para o interior de São Paulo, onde morou por oito anos. Depois, se mudou para Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, onde ficou por mais oito anos – até que foi anunciado o assentamento, e veio a sonhada posse do lote de terra onde Sebastião poderia construir uma vida estável no campo junto com sua agrofloresta. 

O caminho, porém, foi turbulento: no começo do assentamento, o acesso era difícil. A estrada mal existia. “Quando chovia, você não tinha que se preocupar em sair de casa”, ele relembra. Apesar disso, Sebastião nunca abriu mão do conforto e do esmero: a primeira coisa que fez, antes de se mudar, foi construir ele mesmo a casa ornamentada e espaçosa. Até os móveis são de autoria dele e da esposa.

“Tem gente que acha que só porque é sítio precisa morar debaixo de lona”, justifica, como se as varandas altas e a arquitetura inventiva precisassem de justificativa. 

Hoje, dezesseis anos depois desses primórdios desafiadores, Sebastião produz de tudo: com pomar, horta e até futuros tanques para a piscicultura, além, é claro, de um apiário. As abelhas ainda são um negócio recente: estão há dois anos na rotina do produtor. Sebastião considera que está na fase de se profissionalizar, e tem procurado fazer cursos para fortalecer a produção. 

O caminho, no entanto, não é fácil: no mapa, os assentamentos Mutum e Avaré têm o formato de uma bota, uma faixa comprida e irregular de terra, seus fragmentos de cerrado comprimidos e cercados pelas monoculturas, como a soja e o eucalipto. A pressão sobre as florestas desloca animais silvestres para os assentamentos, e todos sofrem com isso: os animais, que perdem seu habitat, e os produtores familiares, que precisam encontrar novas formas de coexistir. 

Sebastião conta que, na Bahia, só conhecia o tatu-canastra pelos livros, e em São Paulo pouco ouvia falar. Ao chegar no assentamento, nem pensava muito no bicho, e acreditava que ele não existia na região, até que começou a criar abelhas. Desde então, o tatu-canastra já derrubou 15 caixas para comer as crias, gerando um prejuízo que vai além das abelhas, já que para chegar às larvas o tatu utiliza sua enorme força para quebrar a madeira entre as garras. E não é só ele que tem se aproximado da propriedade: a anta, também, depois que descobriu as hortaliças de Sebastião, tem dado pouco sossego. 

“Os desafios são todos, tá tendo desafio de todos os lados”, ele admite. É uma história antiga: os gigantes crescem, e os pequenos sofrem, mas Sebastião tem seguido com muita determinação e consciência: com cavaletes, tem buscado reduzir as investidas do tatu, e começou a testar cercas diferentes para manter a anta longe da horta. Mesmo com todos esses prejuízos, tenta o diálogo com as empresas de monocultura ao mesmo tempo em que luta para se fortalecer junto aos vizinhos. Fundador da associação Amigos e Ação, Mutum e Avaré, tem na varanda de casa um espaço para cursos profissionalizantes do SENAR e oficinas de economia criativa, oferecidos a quem tiver interesse. 

Assim, onde os desafios são abundantes, também floresce a esperança: Conta, orgulhoso, que já conseguiu 250 quilos de mel em uma colheita, produto que vende fracionado nas cidades. Conta bastante com a confiança dos clientes, que sabem que estão comprando mel de pureza excepcional. E, se alguém ousa duvidar, Sebastião leva os favos para comprovação. Assim, ele segue se profissionalizando e construindo um futuro para a agricultura familiar lado a lado com a comunidade.

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