Fernando Calazans – A jornada de uma vida no Parque Estadual do Rio Doce

O Parque Estadual do Rio Doce é uma unidade de conservação que abarca um dos maiores sistemas de lagos no Brasil, além de proteger a maior reserva de Mata Atlântica do estado de Minas Gerais. São quase trinta e seis mil hectares. E, aos quatorze anos, Fernando Calazans já conhecia muito bem a área do parque. 

Trabalhava abrindo trilhas, junto aos pesquisadores e ao guarda-parque. Foi assim que Fernando aprendeu muito sobre o jeito do parque, da mata e dos animais: aprendeu a reconhecer rastros de bicho, tocas e fuçadas de tatu. Assim não foi surpresa, que, tantos anos depois, já crescido e apicultor de profissão, reconhecesse de cara o tatu-canastra quando o bichão derrubou as colmeias do seus apiários e quebrou as caixas. 

A história de Fernando na apicultura não é tão antiga quanto sua história com o PERD – afinal, Fernando sempre viveu no entorno do Parque – mas também tem muito chão: ele começou a mexer com as abelhas nos anos 2000, quando tinha 23 anos de idade. Na época, era o padrasto que mexia com apicultura. Fernando começou ajudando e pegou gosto pelo negócio.

Mantém suas caixas na região do parque, um ambiente rico em biodiversidade da Mata Atlântica e que também abriga o tatu-canastra – o gigante que às vezes se depara com os apiários e pode causar prejuízo ao devorar as larvas das abelhas. No começo, Fernando chegou a perder umas quarenta caixas, e o primeiro suspeito foi a irara (um animal comprido, parente dos furões, também chamado de papa-mel). Mas ele já tinha muitos anos de parque, e a experiência abrindo trilhas e guiando pesquisadores falou mais alto: viu de início que a irara não teria força para arrancar os pregos de ferro e abrir as caixas de madeira. Logo depois, uma fuçada próxima ao apiário confirmou a suspeita: o dano era típico do canastra, que pode chegar aos 50kg e tem uma força que se compara ao seu apetite. 

Fernando quase desanimou – mas, graças a um colega que trabalha no parque, já estava ciente das ações do ICAS e entrou em contato com o pessoal do instituto. Assim, resolveu as incursões do tatu com cavaletes de 1,30m de altura que mantém suas caixas fora do alcance do bicho. Com tempo, dedicação e estudo, recuperou as colmeias perdidas e hoje mantém aproximadamente setenta caixas de abelha. Faz o trabalho com muita atenção, aproveitando sempre qualquer oportunidade para se profissionalizar ainda mais: fez cursos e vai em palestras e congressos quando pode, sempre esperando a oportunidade de colocar em prática todo esse conhecimento teórico: “se você vê que tá fazendo algo errado, na hora em que você chega em casa, tem que pensar e ver o que está errado para então consertar”, afirma. Nessa jornada da apicultura, a esposa de Fernando, Maria Marta, é uma companheira que auxilia sempre que pode, e recentemente ele também conta com a ajuda de um aprendiz.

Na sua história com o Parque Estadual do Rio Doce e na relação de vizinhança com o tatu-canastra, também relata uma jornada: no começo, Fernando até sentiu raiva do bicho, mas depois que elevou as caixas nunca mais teve problema, e hoje cada vez mais vê a importância da conservação. “Quando era menino, via muito animal, muito peixe. Hoje não tem mais tanto quanto tinha antes. As novas gerações não vão ver o quer eu vi” conta. O mesmo está acontecendo com o tatu: antes um animal de rastros frequentes pelo parque, está cada vez mais raro nos entornos e no Brasil. É preciso preservar para não deixar acabar, Fernando afirma, e assim ele continua sua história com o Parque Estadual do Rio Doce: de mãos dadas com a conservação, em bons termos com o tatu, e com muita dedicação e trabalho duro na apicultura. 

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