PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO DO TAMANDUÁ-BANDEIRA

Quando protegemos o tamanduá-bandeira, protegemos também a vida.

O Programa de Conservação do Tamanduá-bandeira, conduzido pelo ICAS e parceiros, reúne projetos inovadores que unem ciência, tecnologia e ação comunitária para proteger a espécie, altamente vulnerável a colisões em rodovias e à perda de habitat.

Tamanduá-bandeira atravessando estrada no MS. Foto: Luiz Felipe Mendes

PROJETO BANDEIRAS E RODOVIAS

As rodovias desempenham um papel fundamental no transporte de pessoas e mercadorias, mas quando não são planejadas adequadamente, podem gerar graves impactos ambientais, sociais e econômicos. No Mato Grosso do Sul (MS), uma iniciativa pioneira do ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres buscou compreender e mitigar esses impactos por meio do Projeto Bandeiras e Rodovias, com foco nos tamanduás-bandeira, uma das espécies mais vulneráveis às colisões veiculares com fauna no Brasil.

Fase 1 do projeto (2017 – 2020): Diagnóstico das colisões

O primeiro objetivo do projeto foi quantificar e analisar os impactos ecológicos e sociais das colisões veiculares. Entre 2017 e 2020, foram monitorados cerca de 85 mil km de rodovias no estado, registrando-se a morte de 12.400 animais silvestres. Destes, 40% representavam risco de acidentes com danos materiais e à vida humana e da fauna, incluindo espécies como tamanduás-bandeira, antas e capivaras.

Dados de mortalidade registrados:

Subnotificação: Esses números são estimativas mínimas, já que nossos estudos mostram que cerca de 25% das carcaças desaparecem rapidamente devido à ação de predadores e à decomposição. Além disso, dados de radiotelemetria mostram que a metade dos tamanduás-bandeira que sofrem uma colisão não morrem na rodovia. Eles conseguem se afastar entre 10 a 900m do local do impacto e passam despercebidos nas contagens.

Fase 2 do projeto (2021 – 2023): Dimensão humana e políticas públicas

Nesta etapa, o foco foi expandido para incluir as dimensões humanas, institucionais e políticas relacionadas às colisões veiculares com fauna. O ICAS trabalhou em parceria com autoridades públicas, motoristas, empresas e sociedade civil, promovendo ações coordenadas para reduzir a mortalidade da fauna e minimizar os riscos e impactos para os condutores.

Principais avanços:

Fase 3 do projeto (2024 – em execução): Soluções e inovação

A fase atual do projeto busca implementar soluções inovadoras para mitigar os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e aumentar a segurança viária. Algumas das principais iniciativas incluem:

  • Workshops sobre sinalização viária eficiente para prevenção de colisões veiculares com fauna.
  • Participação no Fórum Rota Sustentável, liderado pelo Ministério Público Estadual (MPE/MS), com a finalidade de promover um espaço de diálogo intersetorial para discutir estratégias de prevenção de colisões com fauna nas rodovias do estado.
  • Criação do Observatório “Rodovias Seguras para Todos. Uma iniciativa colaborativa onde ciência, conservação e segurança se encontram para salvar vidas, unindo esforços para reduzir as colisões veiculares com a fauna e tornar as estradas mais seguras para todos. Trata-se de uma ação coletiva formada por seis organizações da sociedade civil — ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), IHP (Instituto Homem Pantaneiro), INCAB/IPÊ (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira), Onçafari, Instituto Libio e Instituto SOS Pantanal — que atuam no Mato Grosso do Sul, com o propósito comum de conservar a fauna silvestre e proteger vidas humanas.
  • Divulgar soluções de infraestrutura que possibilitem a travessia segura da fauna, como passagens de fauna, cercamentos direcionadores e sinalização em áreas críticas. A iniciativa busca informar a sociedade sobre a importância dessas medidas e incentivar a cobrança por sua implementação eficaz pelo poder público. Essas estruturas são fundamentais diante do cenário de crescente destruição de áreas naturais e da fragmentação dos habitats, que obrigam espécies como o tamanduá-bandeira a atravessar rodovias em busca de alimento e abrigo, aumentando o risco de colisões veiculares.

PROJETO TAMANDUÁS COMO DETETIVES ECOLÓGICOS

O Projeto Tamanduás como Detetives Ecológicos é uma iniciativa inovadora do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) que busca compreender o deslocamento e o comportamento dos tamanduás-bandeira no Cerrado brasileiro. Desde 2017, pesquisadores do ICAS já monitoraram mais de 100 tamanduás-bandeira, utilizando coletes equipados com tecnologia GPS e VHF, que registram a localização dos animais a cada 20 minutos. Esse rastreamento contínuo é essencial para entender seus padrões de movimentação e desenvolver estratégias eficazes de conservação e proteção da espécie.

A iniciativa concentra seus esforços especialmente nos indivíduos em fase de dispersão —período em que os jovens tamanduás deixam sua área de ocorrência natal em busca de novos territórios. 

Tamanduá-bandeira com colete de monitoramento por GPS e VHF. Foto: Mário Alves

Ao acompanhar esses animais em uma paisagem cada vez mais fragmentada por rodovias, extensas monoculturas e áreas urbanas, os pesquisadores conseguem mapear suas rotas e analisar como eles interagem com diferentes tipos de ambientes, identificando quais áreas ainda permitem sua passagem e quais se tornaram barreiras ao deslocamento. Outro ganho com as informações de monitoramento é a identificação das vulnerabilidades que a espécie enfrenta nesta fase da vida.

Chamados de “detetives ecológicos”, esses tamanduás ajudam a fornecer informações valiosas sobre a permeabilidade da paisagem, possibilitando o planejamento de corredores ecológicos que garantam a conectividade entre fragmentos de habitat. Desde maio de 2024, o projeto passou a atuar também na Área de Proteção Ambiental (APA) do Guariroba, uma região mais preservada e com menor interferência de rodovias, em comparação à Nova Andradina, onde se concentravam os estudos anteriores. Nesta nova área de estudo, as atividades econômicas são limitadas principalmente à pecuária extensiva, favorecendo o uso sustentável do território e oferecendo mais estabilidade para a população de tamanduás. Até o momento, 30 animais já foram monitorados na área — e esse trabalho permitirá aos pesquisadores compreender de forma detalhada aspectos como dispersão, taxa reprodutiva, maturidade sexual, longevidade e comportamento parental.

Com uma abordagem de longo prazo, o Projeto Detetives Ecológicos reforça seu papel fundamental na conservação do tamanduá-bandeira, mostrando que ciência e tecnologia podem caminhar juntas para garantir a proteção da biodiversidade e a coexistência entre a vida silvestre e as atividades humanas.

Tamanduá-bandeira utiliza cauda para protege seu filhote. Foto: Alessandra Bertassoni

PROJETO BABIES

Desde agosto de 2021, vem sendo realizado um estudo inédito no Cerrado de Mato Grosso do Sul, focado no cuidado maternal e no comportamento de fêmeas e filhotes de tamanduás-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). O objetivo é compreender os padrões de cuidado materno desses animais, gerando dados fundamentais para a sua conservação, já que filhotes de 0 a 2 meses são apontados como aqueles com maior taxa de mortalidade. Os resultados preliminares indicam que os filhotes dependem intensamente das mães nos primeiros dois meses de vida, um período crucial para seu desenvolvimento.

Essas informações são valiosas para aprimorar o manejo da espécie em cativeiro e aumentar suas chances de sobrevivência na natureza, contribuindo para a conservação dos tamanduás-bandeira a médio e longo prazo. As observações comportamentais também apontam o desenvolvimento da independência do filhote da sua mãe e os principais aprendizados.

Além disso, essa pesquisa traz novas revelações sobre uma das características mais marcantes do tamanduá-bandeira: sua longa e exuberante cauda. O estudo descreveu 11 comportamentos distintos relacionados ao uso da cauda, a maioria registrada pela primeira vez, documentados ao longo de 266 horas de observações de campo realizadas entre agosto de 2021 e novembro de 2023, em áreas do Cerrado sul-mato-grossense impactadas por atividades humanas.

TAMANDUASAS

O Projeto TamanduASAS é uma iniciativa pioneira no Brasil, dedicada à criação, reabilitação e soltura monitorada de filhotes órfãos de tamanduá-bandeira. Desenvolvido em Minas Gerais desde 2017 pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), o projeto conta com a cooperação técnica da Nobilis e do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS).

A maioria desses filhotes perde as mães em colisões veiculares nas rodovias mineiras. O projeto surgiu justamente para oferecer a esses animais cuidados especiais, que incluem aleitamento, desmame, adaptação e preparo para o retorno à natureza. Esse trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar, que desenvolveu protocolos específicos para garantir a saúde, o bem-estar e a reintegração desses animais ao ambiente natural.

Além de aprimorar o manejo da espécie em cativeiro, o TamanduASAS realiza pesquisas e inovações no monitoramento pós-soltura. A metodologia inclui o uso de colares com rastreadores GPS e armadilhas fotográficas acionadas por movimento, permitindo que os tamanduás-bandeira sejam acompanhados mesmo após sua reintrodução em áreas previamente estudadas e selecionadas especialmente para a soltura monitorada dos tamanduás-bandeira. O projeto conta com duas áreas de soltura em unidades de conservação estaduais. A metodologia de soltura do projeto, conhecida como soltura branda, envolve a construção de recintos de reabilitação na área de soltura e a manutenção de comedouros externos ao recinto, garantindo suporte alimentar enquanto os animais se adaptam gradualmente à vida livre. Até o momento, 24 tamanduás já foram reintroduzidos, e cada experiência contribui com aprendizados importantes para a conservação da espécie.

Tamanduá-bandeira utiliza cauda para protege seu filhote. Foto: Alessandra Bertassoni

O projeto também atua no engajamento de proprietários rurais, incentivando a criação de áreas de reabilitação, unidades de conservação e a formação de corredores ecológicos, como aconteceu com a criação da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Retiro Águas Vivas, na zona de amortecimento do Parque Estadual do Pau Furado, em Uberlândia e Araguari e a reestruturação da RPPN Jacob, no município de Nova Ponte. Todo esse trabalho é integrado ao Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tamanduá-bandeira, que estabelece estratégias prioritárias para a proteção da espécie no Brasil. O TamanduASAS demonstra que, com conhecimento técnico, dedicação e parcerias estratégicas, é possível unir ciência, conservação e bem-estar animal para garantir um futuro mais seguro para o tamanduá-bandeira e a biodiversidade brasileira.

Sobre a espécie: tamanduá-bandeira

VÍDEOS

PUBLICAÇÕES

ESTRADAS MAIS SEGURAS PARA TODOS

No caminho para reduzir as colisões com fauna.

MANUAL DE ORIENTAÇÕES TÉCNICAS

Guia de mitigação de colisões veiculares com fauna silvestres nas rodovias estaduais de Mato Grosso do Sul.

EQUIPE

Arnaud
Desbiez

Zoólogo

Atua nas áreas de Biologia da Conservação, pesquisa e ecologia de espécies e uso de recursos naturais. Trabalhou e morou em Belize, Argentina, Bolívia…

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Danilo
Kluyber

Médico veterinário

Médico Veterinário graduado pela Universidade Paulista (2003), possui experiência em Medicina de Animais Selvagens, Medicina da Conservação e…

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Débora
Yogui

Médica veterinária

Médica veterinária graduada pela Universidade de São Paulo (2016), mestranda em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul…
Saiba mais>>

Mariana
Catapani

Bióloga

Doutorado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (PROCAM-USP) com período sanduíche na Universidade de Bangor (Wales, UK)…

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Erica Naomi
Saito

Bióloga

Atuação:   Possui experiência em monitoramento e mitigação de colisões veiculares com fauna, monitoramento faunístico, avaliação de impacto ambiental e gestão ambiental de rodovias…

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Yuri G. G.
Ribeiro

Engenheiro Florestal

Possui experiência  em  análise espacial (especialmente com modelagem de distribuição de espécies e análises de priorização espacial), uso de dados digitais para conservação de espécies…

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Fernando
Ascensão

Biólogo

Atuação: Colaborador na área de Ecologia de Estradas, responsável pela análise dos padrões de atropelamento e padrões espaciais e temporais dos movimentos dos animais com coletes GPS.

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Victor
Castro

Biólogo

Atuação: Fundador da Associação Nobilis, com grande experiência em levantamento, monitoramento e resgate de fauna silvestre. Colabora em todo o processo de criação, reabilitação…

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Mario
Alves

Médico Veterinário

Graduado pela Universidade Estadual do Centro-oeste UNICENTRO, com residência em Medicina Zoológica pela UFPR com atuação no Zoológico Beto Carrero World…

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Isadora
Ruttul

Gestora Ambiental

Mestra em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (PROCAM-IEE/USP) e graduada em Gestão Ambiental pela mesma universidade…

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Andréia Nasser Figueiredo

Educadora ambiental

Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos. Mestra em Ecologia…

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Fernanda
Abra

Bióloga

Especialista em Ecologia de Estradas e postdoc do Centro de Conservação e Sustentabilidade do Smithsonian, Washington D.C., e é sócia-proprietária da empresa ViaFAUNA. Colabora com o projeto…

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Audrey
Brisseau

Economista

Graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Paris X e em Marketing & Gestão pelo Programa de MBA da Reims Business School, atuou como Coordenadora de Projetos & Comunicação durante…

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Guto
Akasaki

Jornalista

Graduado em comunicação Social com habilitação em Jornalismo, atua como assessor de imprensa do terceiro setor desde 2010. Apaixonado por fotografia e criação de conteúdo, chegou para somar com a equipe…

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PESQUISADORES ASSOCIADOS

Kátia Ferraz

Bióloga, doutora em ecologia aplicada

Andreas Kindel

Biólogo, doutor em botânica

Camila Luba

Veterinária, mestre em biotecnologia

Vinícius Alberici

Biólogo, mestre em ecologia aplicada

Juliana Magnino

Veterinária, mestre em saúde animal

Carmen Elena Barragán

Biólogo, doutora em ecologia e recursos naturais

Alessandra Bertassoni

Bióloga, doutora em biologia animal

Gabriel Massocato

Biólogo, coordenador do Projeto Tatu Canastra

Biotério UCDB

Coordenado por porfessores parceiros

VOLUNTÁRIOS

Luka

Voluntário

Caio

Voluntário

Douglas

Voluntário

Duada

Voluntário

Apoiadores Institucionais

Fundação Segré provê o financiamento principal para o Projeto Bandeiras e Rodovias.
A Royal Zoological Society of Scotland provê os recursos para a contratação do pesquisador Dr. Arnaud Desbiez como coordenador de projetos de conservação.
O Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) auxilia no suporte administrativo às atividades no Brasil.

Financiadores

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