O resultado reforça a necessidade de medidas estruturais e orientou o desenvolvimento da nova sinalização com simulação de colisão para aumentar a atenção dos motoristas.

 

Um estudo inédito publicado no Journal of Environmental Management mostrou que as tradicionais placas de travessia de fauna, que são amplamente usadas no Brasil e no mundo, têm eficácia limitada na redução da velocidade de veículos, mesmo em rodovias com alto índice de colisões veiculares com animais silvestres, como a BR-262, no Mato Grosso do Sul. O trabalho, assinado por pesquisadores do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), USP/ESALQ, UFRGS e instituições internacionais, avaliou pela primeira vez quatro modelos distintos de sinalização, comparando seu impacto real sobre o comportamento de motoristas. 

A pesquisadora Mariana Catapani, uma das autoras do estudo, explica que a foram testados quatro tipos de placas: educativas, padrão, controle e placas com mensagens de comunicação de risco. A equipe mediu a velocidade de mais de 5,3 mil veículos, incluindo carros, SUVs e caminhões, em diferentes horários e distâncias antes e depois da sinalização.

“Somente as placas com mensagens de risco, como: ‘Animais na pista, reduza a velocidade’, apresentaram alguma redução de velocidade, e ainda assim de forma mínima e restrita a poucos metros após a sinalização. Essa desaceleração é tão pequena que praticamente não melhora a capacidade de reação do motorista diante de um animal na pista. Em outras palavras, placas sozinhas dificilmente evitariam acidentes,” explicou Mariana.

O estudo também mostrou que muitos motoristas retomam a velocidade logo após passarem pela placa. Os pesquisadores observaram repetidamente esse comportamento onde o condutor desacelera apenas no ponto da sinalização e acelera em seguida, muitas vezes ultrapassando a própria velocidade anterior.

Colisões com fauna: um perigo que ameaça vidas humanas e silvestres.

A BR-262, que liga Campo Grande ao Pantanal, é um dos trechos mais críticos para atropelamentos de fauna no Brasil. Espécies emblemáticas, como tamanduá-bandeira, antas, capivaras e jacarés, estão entre as mais atingidas, refletindo o alto risco que a rodovia representa tanto para a biodiversidade quanto para a segurança de motoristas.

De acordo com, Arnaud Desbiez, presidente do ICAS, um estudo conduzido pelo Instituto, no trecho entre Campo Grande (MS) e a Ponte do Rio Paraguai, em Corumbá (MS), mapeou áreas críticas e identificou as espécies mais afetadas ao longo de um ano de monitoramento contínuo, de maio de 2023 a abril de 2024. 

“Os resultados são alarmantes: 2.300 animais foram encontrados mortos por atropelamento nos cerca de 350 km analisados, reforçando a urgência da combinação de diversas medidas efetivas de mitigação”, disse o pesquisador.

Além da perda de biodiversidade, o problema também atinge vidas humanas, pois colisões com fauna representam risco grave para motoristas, especialmente em trechos onde circulam caminhões de grande porte.

Nova sinalização em teste na BR-262 já nasceu inspirada pelo estudo

Apesar da eficácia limitada das placas tradicionais, o estudo mostra que mensagens explícitas de risco são as que mais conseguem gerar algum nível de cautela. Esse resultado orientou diretamente o desenvolvimento de uma nova sinalização para a BR-262, fruto do I Workshop sobre Sinalização de Travessia de Fauna em Rodovias, realizado em 2023 e que reuniu especialistas de diversas áreas.

A partir dessas discussões, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) instalou, em novembro de 2024, um novo modelo de placa com imagem mais impactante, que simula uma colisão com animal. Uma estratégia criada para ampliar a percepção de perigo e prender a atenção do motorista por mais tempo.

“Se as placas vão continuar existindo – e elas vão – precisamos fazê-las evoluir. Nosso estudo mostra que sinais que comunicam risco de forma direta e visualmente forte são os mais eficazes para estimular atenção imediata”, afirma Mariana.

Placas não bastam: estudo reforça que solução eficaz exige múltiplas medidas

O artigo conclui que as placas, mesmo as mais eficazes, não substituem medidas estruturais já comprovadas, como cercas direcionadoras, passagens inferiores e superiores para fauna, radares e outros dispositivos permanentes de redução de velocidade, além de campanhas educativas contínuas. 

“O recado é claro: só sinalizar não resolve. Para proteger vidas humanas e silvestres, precisamos combinar engenharia, fiscalização e comunicação”, reforça Mariana.

Neste mês, a BR-262 começou a receber as primeiras cercas ao longo da rodovia. A instalação faz parte do plano de mitigação de atropelamentos de fauna silvestre que será implantado em um trecho de 278 quilômetros, entre os municípios de Anastácio, Aquidauana, Miranda e Corumbá. Trata-se de uma ação aguardada há anos por pesquisadores e órgãos ambientais.

De acordo com o DNIT, o plano prevê a construção de 170 quilômetros de cerca condutora de faunasete passagens superioresdez novas passagens inferiores e a adequação de outras oito já existentes, além de sinalização específica e equipamentos redutores de velocidade. O prazo de execução é de 730 dias, com investimento estimado em R$ 30 milhões.

É um avanço importante para a conservação da nossa fauna e seguimos acompanhando de perto e compartilhando cada etapa do que envolve as colisões veiculares com fauna, que colocam em risco a vida de animais e pessoas.

Sobre o estudo

O artigo “Wildlife crossing signs have limited effectiveness in reducing vehicle speeds” foi publicado em novembro de 2025 no Journal of Environmental Management e analisou mais de 5 mil medições de velocidade ao longo de 18 dias de coleta. A pesquisa foi conduzida por especialistas do ICAS, USP/ESALQ, Chester Zoo, UFRGS, Universidade de Lisboa e outros parceiros.

Contato para a imprensa:

Guto Akasaki, jornalista e assessor de imprensa do ICAS.
+55 (67) 98215-1004
comunicacao@icasconservation.org.br 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *