Criatividade e preservação a serviço do mel: Marcus Capillé é um apicultor com vinte anos de experiência e com uma rica história tanto na região de Campo Grande quanto no interior do estado de Mato Grosso do Sul. A decisão de trabalhar com as abelhas veio da paixão pela natureza: Marcus afirma que sempre teve vocação para a lida rural, e quando se viu com a vida já estruturada, as filhas já crescidas, foi estudando, fazendo cursos e se identificou.
Trabalhar em contato e em parceria com a natureza, para ele, é um privilégio: com um enorme sorriso, ele relembra da vez em que foi passar por um colchete a caminho de suas colmeias, e, bem onde passaria a roda da caminhonete, estava um filhotinho de quero-quero. “Peguei ele na mão, com a mãe toda alvoroçada por perto, e coloquei numa moitinha”. Até as cobras, temidas por muita gente, Marcus trata com todo respeito: contou da vez em que foi visitar as abelhas e encontrou um jararacão da mata no bebedouro das colmeias: “peguei ela com um pedaço de pau e levei pra longe”.
“O apicultor é um preservacionista”, diz, e, no caso do Marcus, é possível afirmar que é também um artesão: embora negue ser inventor, dizendo que todas as ideias que concretiza vieram de algum vídeo, ele tem uma oficina onde faz as próprias caixas de abelha, constrói bebedouros para as colmeias, usando baldes com boia e brita, para que as abelhinhas possam beber água sempre fresca, pousando na brita seca. Afinal de contas, “o que você puder proporcionar de bem-estar para as abelhas”, você vai ganhar”, segundo Marcus. Ele também tomou a iniciativa de proteger suas colmeias contra o tatu-canastra, embora os primeiros métodos não tenham dado tão certo quanto o esperado: ele prendeu as colmeias a um poste de cerca, mas o tatu veio por trás e abriu as caixas.
Na época, Marcus publicou num grupo de apicultura e recebeu apoio de um colega apicultor e do ICAS. Hoje usa colmeias elevadas e não perde mais para o tatu.
“Fiquei muito satisfeito de conhecer o projeto, foi uma experiência nova e me ajudou a recuperar meus enxames”, conta, se referindo ao Projeto Rainhas, que, através da colaboração com o apicultor Adriano Adames de Souza, supre os apicultores com rainhas de boa linhagem que permitem a criação de novas colmeias.
Mesmo assim, existem desafios: uma vez, em Jaraguari, Marcus conta que perdeu 50 colmeias para a truculência humana: o fazendeiro vizinho à propriedade onde ele tinha colocado as caixas se estressou, ameaçou e exigiu que ele retirasse as caixas no mesmo dia. Marcus disse que não tinha como fazer isso no mesmo dia – afinal, o transporte de 50 colmeias de uma vez não é assim tão simples – e, quando voltou no dia seguinte, o fazendeiro tinha jogado óleo diesel em todas as colmeias. Na época, o delegado não ajudou.
“Só não parei porque já tinha investimento. Vendi uma moto boa pra comprar material”, relembra. Hoje, vê como principais desafios para a apicultura o desmatamento e o uso indiscriminado de inseticidas, mas também enxerga o potencial de colaboração com os lavoureiros conscientes, graças à polinização das abelhas na produção. Na sua perspectiva, a apicultura está caminhando para um ritmo que exige profissionalismo, mas deveria ter um reconhecimento melhor da parte dos órgãos do governo, afinal de contas, é uma atividade que, além de produzir alimento, preserva e cuida da natureza ao mesmo tempo.