O que a marcenaria tem a ver com a produção de mel? Para o Leo, que trabalha com as duas coisas, a resposta seria tudo. 

 

A história de Leo com a apicultura vem de berço: o avô mexia com abelhas, no sul do país, e na época nem utilizava roupas de proteção. “Desde moleque eu tenho essa ideia”, conta. Mas a jornada foi cheia de percalços. Ao se mudar para Dourados, Leo trabalhou por um tempo como mototáxi, até que um conhecido da cidade o chamou para trabalhar com abelhas. Quando se mudou para Campo Grande, porém, Leo não pôde trazer suas colmeias – e os vendeu para esse apicultor. 

 

Na capital, Leo começou a capturar enxames, mas não encontrava boas caixas para comprar. “Aí eu falei: vou produzir caixa padrão”, relembra. Na época em que tomou essa decisão, porém, ele conta que não sabia nem mexer em máquina de marcenaria, o que não foi empecilho: Leo foi estudando, se profissionalizando, e hoje tem uma oficina completa, capaz de produzir de tudo – mas também especializada para a produção de caixas de abelha. 

 

“Tenho o conhecimento das abelhas, e esse é o diferencial para fazer caixas”, Leo conta, mostrando toda a variedade da oficina: além das caixas tradicionais para a abelha amarelinha, Apis melifera, ele também produz caixas especializadas e sob medida para as diferentes espécies de abelhas nativas: jataí, mandaçaia, lambe-olho e muitas outras, cada uma com as medidas adequadas para que os enxames prosperem. Além disso, Leo produz uma grande variedade de peças de madeira, desde caixas de passarinho a bebedouros para aves, e conta que não desperdiça nada: sobras de caixas grandes de Apis melifera se tornam caixas menores para abelhas sem ferrão, a maravalha é doada para o exército e o pó vai para ONGs que cuidam de gatos sem lar. 

 

Com um maquinário especializado, ferramentas inventadas pelo próprio apicultor, tudo para otimizar a produção de caixas, hoje ele as fornece para o estado inteiro, mas não para por aí: “gosto de compartilhar o conhecimento”, Leo conta, demonstrando como ensina os apicultores a fritar as caixas e tratá-las com parafina – um processo que protege a estrutura dos cupins e intempéries – mas também como lavá-las após a fritura. Os resquícios de óleo matam as abelhas faxineiras, e pode prejudicar o desenvolvimento das colmeias, de forma que Leo sempre mostra aos clientes a forma correta de limpar a madeira antes de capturar enxames. 

 

“Hoje tem muito cliente que começou com o que eu ensinei”, afirma. Mas o trabalho de Leo não para somente na marcenaria: hoje, ele tem 78 caixas com abelhas, e pretende dobrá-las ainda no começo de 2024. “Quero chegar em 150, 200 caixas”, conta, e também pretende começar a participar de congressos de apicultura. Todos seus enxames ficam na região de Campo Grande, e, quando perguntado sobre o canastra,  Leo admite que não imaginava que o animal estaria assim tão perto da capital, mas também não é tão surpreendente: 

 

“O desmatamento está sendo muito grande e os animais estão chegando perto da cidade”, pondera. Apesar dessa perda de habitat, Leo afirma que usa cavaletes para elevar as caixas e nunca teve problema com o tatu, só com besouros exóticos que parasitam as colmeias. Como grandes desafios para a apicultura, Leo vê a falta investimento: O estado é rico em pasto apícula, mas a atividade não tem incentivo do governo. Os órgãos fiscais do agro também não são preparados para lidar com a apicultura, há muito desconhecimento dos próprios órgãos em relação à legislação. 

 

A falta consciência, também, é um grande desafio: “no futuro, vai ter que ter uma discussão com os órgãos competentes porque o desmatamento está sendo demais, o veneno está sendo demais, nós temos que ir cada vez mais longe”, afirma, “já fomos até no ministério público federal debater essa questão do veneno”. Atualmente, os agrotóxicos são uma das principais ameaças aos polinizadores, tanto silvestres, quanto da apicultura. E com todos esses desafios, Leo tem muito orgulho do que faz: “eu acho que estamos fazendo esse trabalho de salvar as abelhas, de fazer caixa para abelha, pra passarinho. É o verdadeiro trabalho para salvar a natureza”, conta, afirmando também que gostaria de construir caixas-ninho para araras no futuro. 

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