Sr. Eugênio – Feirante de tradição, apicultor por profissão: É assim que Eugênio opera em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, onde mantém suas cento e cinquenta colmeias, todas na beira do rio Paraná.
Com 73 anos, ele já trabalha com as abelhas há mais de três décadas: “mais de trinta anos, mas exatamente eu não sei”, conta. Quando começou, era funcionário da Empaer, e a Secretaria da Cultura criou um projeto de fomento à apicultura. Para o tal projeto, selecionaram um técnico de cada região, e Eugênio foi o escolhido para o projeto. Fez um curso, e nele foi picado por uma abelha. “Aí acabou, foi paixão à primeira vista”, relata em tom de brincadeira, mas que nem por isso deixa de ser verídico: é assim que muitos apicultores de apaixonam pelas abelhas; nas vicissitudes da lida.
Desde então, Eugênio já foi instrutor de apicultura, criador de abelhas e comerciante de mel. É o feirante mais antigo na região de Três Lagoas, e hoje pode ser encontrado às quartas na Feira Central de Três Lagoas, mas relembra a época antiga da feira: quando ela não era coberta, e, se por acaso viesse a chuva, tinha que correr para baixar a lona e cobrir a mercadoria. Ficava abaixado, apertado, debaixo da lona, esperando a chuva passar.
Seu Eugênio traz também conhecimento histórico, já além da memória mas que revela uma curiosidade sobre a origem das feiras: “originalmente era tudo escambo, as pessoas trocavam o que produziam”. Hoje em dia – pelo menos em Três Lagoas – já se foi a era do escambo e da chuva que, sem aviso, poderia encharcar tanto a mercadoria quanto os feirantes. Hoje, Eugênio enfrenta outras adversidades: tem cem caixas vazias, porque não está tendo enxame.
“É a natureza, a gente não sabe o que tá acontecendo. Só elas (as abelhas) sabem.”
O tatu também tem sido um sufoco: Eugênio chegou a perder 80 caixas e, no começo, não sabia quem era o culpado. Deixava as caixas há 40 centímetros de altura e eram destruídas. Subia para 80 centímetros e também perdia as colmeias. Foi levantando no cavalete mas o mistério permanecia: “adoro o meio rural, mas não sou matuto. Não sou aquele cara que conhece rastro de bicho”, conta.
Assim, foi uma rede de informação entre os apicultores locais que o levou à identificação do tatu-canastra.
Hoje mantém as caixas há um metro e vinte centímetros de altura e começou a parafusá-las, mas ainda não resolveu as empreitadas do canastra completamente. Quando perguntado se está numa corrida armamentista contra o maior tatu do mundo, Eugênio tem uma resposta descontraída na ponta da língua: “não estou numa corrida com ele porque temos hábitos diferentes. Eu sou diurno e ele é noturno”, brinca.
Com a nova técnica dos parafusos, o plano é zerar as perdas para o tatu – sem prejudicar o bicho, que vive nas mesmas áreas das colmeias e vai continuar tendo acesso ao seu alimento natural, que são os cupins e formigas.
E quem dera todos os desafios pudessem ser resolvidos de forma tão direta: “O maior desafio de toda a apicultura é a falta de cultura do brasileiro de consumir o mel como alimento”, Eugênio lamenta. Nas feiras, vende muito mel na época das gripes – e bem pouco em outras estações. “No agro, nós somos o patinho feio”, comenta, lembrando como outras cadeias de produção, como a do leite, fizeram grandes campanhas na televisão e rádios para aumentar o consumo. Eugênio sente falta de uma iniciativa semelhante que fomentasse o mercado interno de mel – já que boa parte da produção brasileira acaba sendo vendida no exterior, o que muitas vezes prejudica o pequeno produtor e o comércio local – como os feirantes.
Mas apesar das dificuldades, tanto no passado como no presente, Eugênio segue o feirante mais antigo da região, com o filho como parceiro na comercialização do mel e uma neta bióloga que levará adiante a conexão com a natureza. Quem sabe um dia, assim como as feiras passaram a ganhar uma proteção contra a chuva repentina, os tempos mudem e o mel passe a ser valorizado como alimento e ingrediente pela cultura nacional, beneficiando famílias como a de Eugênio pelo país afora.