Ao chegar em Campo Grande, Heloísa andou nas matas para escutar as abelhas, é o que conta a apicultora, que veio de Aral Moreira, no sul do estado, para a capital há mais de seis anos.
Em Aral Moreira, Heloísa já criava suas abelhas. Tinha quinze caixas e o apoio de uma comunidade muito unida. Ela conta que os apicultores se reuniam para pegar abelhas e era sempre uma festa, com direito a comes e bebes: uma parte ficava na chácara cozinhando, enquanto as outras pessoas procuravam as colmeias.
“Geralmente era casal, mas tinha muita mulher que saía para pegar abelha e o marido ficava cozinhando”, relembra. Na época, porém, o mel não tinha muito mercado, saía mais como remédio. E nem todo mundo era parte dessa comunidade acolhedora: Heloísa conta que perdeu toda a produção numa noite em que a ganância humana destruiu suas quinze colmeias: “foram de noite, levaram o mel e queimaram todas as caixas”, ela conta.
Pouco depois disso, ela se mudou para Campo Grande e teve que começar de novo. Andava pelas matas e áreas verdes da cidade em busca de abelhas, mas não as escutava. Chegou a acreditar que não encontraria abelhas por aqui, até que estava andando nas cercanias de uma leiteria e ouviu os seus zunidos. “Elas têm os corredores delas”, Heloísa conta, se referindo às rotas secretas que as abelhas usam para se deslocar, um conhecimento tanto científico quanto tradicional da apicultura.
Nessa época, ela começou a pegar colmeias, mas elas não estavam ficando nas caixas. Heloísa, então fez um curso do Senac para descobrir porque as abelhas não estavam ficando: “eram as mínimas coisas”, relembra, afinal de contas, criar abelha é trabalhoso, e os animais são sensíveis.
Depois disso, Heloísa conta que sua relação com as abelhas criou asas: “teve um dia que entrei na mata para pegar abelhas, entrei sete da manhã e uma da tarde eu tinha treze caixas cheias de abelhas, elas iam entrando de monte, parecia coisa de filme”. Até mesmo em casa ela já recebeu enxames, como se as abelhas a procurassem ou de alguma forma soubessem que a apicultora tem uma caixa pronta para recebê-las.
Com muita propriedade e independência, Heloísa trabalha com as colmeias às vezes sozinha, às vezes com o auxílio de colegas da apicultura, às vezes com a filha. Recentemente, comprou uma máquina para fazer as próprias caixas e está sempre expandindo e se profissionalizando: “antes, não conseguia pegar jataí, agora fiz umas iscas diferentes e estou pegando”, conta.
Sobre o tatu-canastra, afirma que não teve muitos problemas: da região de onde veio, não tinha tatu-canastra, começou a ver só quando veio para Campo Grande. Até hoje, teve algumas caixas derrubadas, mas não sabe se foi tatu ou o vento. Especula que, talvez por ter deixado o apiário na frente de um curso d’água, os animais que passam por ali têm como prioridade beber água, ou talvez tenha mais alimento disponível para o tatu, que não se interessou muito por suas colmeias.
Afirma que, hoje em dia, boa parte das dificuldades de trabalhar com apicultura é a receptividade do público e do mercado: “A gente vê na TV as propagandas do agro com boi, soja, mas as pessoas não veem muito sobre mel. A venda de mel é pouca no Brasil, as pessoas compram mais pra remédio”. Para Heloísa, deveria ter uma maior divulgação do mel como um alimento rico, que aumenta a imunidade além de contribuir para tantas receitas. Especialmente pelo valor sustentável da atividade: “o apicultor é uma pessoa para quem o meio ambiente é prioridade”, afirma. Ela mesma faz parceria com fazendeiros responsáveis, porque, graças à presença das abelhas, tudo que se planta produz mais, e sem agrotóxicos, já que a polinização melhora a produção.
Para o futuro, Heloísa tem esperança: “a apicultura tá evoluindo muito, hoje tem tecnologia, até enxertia de rainhas estão fazendo” comenta, afirmando que o Brasil tem um grande potencial para apicultura, e falta somente incentivo.