“Se você colocar a apicultura como uma escada, a gente subiu toda a escada não pulamos nenhum degrau”, é o que conta Gilson Partzlaff, que trabalha no ramo há cerca de dez anos.
Desde o início, foi um negócio de família: Gilson conta que aprendeu os primeiros passos com o sogro que foi meleiro no Paraguai. “Meu menino tinha muito problema respiratório e a gente dava muito mel para ele”, relembra.
Depois, comprou uma propriedade em Palmeiras e a família foi procurar abelhas “mas não tinha, porque era uma mata fina demais, não tinha casa para elas”, conta. Na época, as notícias denunciavam casos de falsificação de mel: os falsários aumentavam o volume do mel com detergente de eucalipto e vendiam como mel de eucalipto. Esses escândalos deixavam a família até receosa de comprar mel, e fortaleceram a determinação de Gilson em trabalhar com a apicultura e produzir um mel confiável.
“Primeiro comprei a caixa, a roupa comprei depois”, relembra. Pegou alguns enxames na cara e na coragem. Na época já existia o youtube, mas não tinha tantos vídeos sobre apicultura como existem hoje, então Gilson aprendeu parte com o sogro, parte pesquisando e depois fez um curso no Senar.
Tem quatro irmãos homens, e conta que eles o ajudavam a cuidar das caixas em Palmeiras: chegava lá, tinha ninho de saracura, meus irmãos falavam ‘rapaz, cê tá com um ninho de saracura bonito!’”.
E assim, com paciência, determinação e muita união da família, Gilson conta como foram crescendo: começaram com uma roupa protetora só, de brim. Depois foram comprando mais materiais, entrando em contato com cooperativas e grupos de apicultores. Desde o início, a esposa Josiele e o filho também trabalhavam em campo, tanto na vistoria das caixas quanto no manejo de abelhas: o menino Miguel tinha seis anos quando começou a ajudar os pais com a lida, com sua própria roupa protetora. Era muito grudado no pai e faziam tudo juntos. No começo de 2023, porém, a família foi pega desprevenida por uma reviravolta do destino: Miguel e Josiele começaram a apresentar alergias e sensibilidade às abelhas.
Josiele conta que estava no carro com as colmeias quando começou a ter sintomas: coriza, espirros e muita coceira. As picadas se tornaram muito mais perigosas, e hoje Miguel, de dezesseis anos, não vai mais a campo por ser muito arriscado. Josiele evita visitar os apiários mais afastados e de acesso mais difícil, mas continuou indo a campo, embora com cuidado redobrado: “passo durex entre a roupa e a luva para não entrar abelha”, conta, explicando como redobraram os cuidados até conseguirem um tratamento de imunoterapia, que atualmente não está disponível pelo SUS.
Esse imprevisto, porém, não impediu o crescimento e nem mesmo atrapalhou a união da família: Miguel continua ajudando os pais, montando as caixas para as abelhas; Josiele, quando não vai a campo para fazer o manejo, também trabalha de casa. E a filha mais nova do casal, Rafaela, que não apresenta sensibilidade, também se aventura com as abelhas: ganhou até uma roupa protetora cor-de-rosa para o campo. Hoje a família tem noventa colmeias, que contribuem com 50% da renda da família. Gilson comenta que o objetivo é chegar a 120 caixas.
Quando perguntado se sabia que o tatu poderia viver tão perto assim das cidades do MS, Gilson admite que não esperava por isso: por ser um bicho raro, imaginava que ele só seria encontrado em regiões muito mais isoladas. Foi trabalhando com as abelhas que ele entrou em contato com o tatu-canastra: entraram na cooperativa de apicultores e descobriram que muitas fazendas onde produziriam mel tinham o tatu-canastra. Tiveram alguns imprevistos com o tatu: chegaram a perder uma caixa por semana, e por isso entraram em contato com o ICAS.
Atualmente, utilizam suportes para elevar as colmeias, mas estão numa corrida armamentista com o tatu: “os métodos dão certo, mas tem que atualizar, porque o tatu vai atualizando junto com a gente”. O tatu-canastra, que é o maior tatu do mundo, tem uma grande variação de tamanho, e, segundo Gilson, “vai se medindo cavalete por cavalete, e vai se esticando para alcançar o cavalete”. Em algumas regiões de MS, é preciso elevar as colmeias até 1,30m acima do chão para garantir que estejam fora do alcance do tatu.
“Tem um senhor que teve que atualizar de um metro pra um metro e dez, parece que o tatu foi crescendo”, conta Gilson.
Hoje em dia, ele conta que as maiores dificuldades têm sido o ciclo de chuvas que está instável, atrapalhando as floradas, e que também às vezes dificulta a logística de deslocamento até as colmeias. Apesar dessas dificuldades, porém, a família persevera: “criar abelha é desafiador. Quem falar que é fácil está mentindo” afirma Gilson, “Mas é recompensador. Você aprende muito. Aprende a esperar a chuva, aprende a ter paciência com o ritmo da natureza. Você aprende a ter esperança”.