A história de Eduardo com as abelhas começou há trinta anos, numa fábrica de refrigerantes em Ribeirão Preto. A fábrica ficava na área rural, e na propriedade passava um córrego, com reserva de mata e muito bicho silvestre. Na época, Eduardo trabalhava com segurança de trabalho e um dia recebeu um chamado inesperado: um caminhão chegou para descarregar suprimentos, mas havia um enxame entre os pallets.
Recorreram a Eduardo, e, naquele momento, a solução foi exterminar o enxame através do Co2. “Mas fiquei pensando nisso por um tempo, pesou a consciência” ele conta.
Aquelas abelhas permaneceram por um bom tempo na mente de Eduardo, e, quando ele saiu do emprego na fábrica, se transformou num chamado: ele tinha um amigo que trabalhava com abelhas, e foi aí que começou a ter um pouco de contato e experiência com apicultura. Logo começou a fazer cursos, expandir o conhecimento e os contatos: se apaixonou pelo própolis e participou de muita pesquisa de empresas especialistas na comercialização desse produto. Fez questão de aprender sobre a história, os componentes e benefícios de todos os produtos das abelhas, não só o própolis, mas também sabonete, pomada e pólen – produtos que hoje ele comercializa.
Ele descreve como dá cursos e vende material, mas procura também ser muito ético: por vezes, recebe clientes animados demais, dispostos a começar com um grande número de caixas de abelhas, mas que não se atentam a outros detalhes cruciais para a produção: desde os materiais necessários para a colheita do mel a gasolina gasta no deslocamento entre os apiários.
“Você já tem macacão? Já tem fumigador?”, pergunta, e prossegue com o que chama de aula de realidade, passando por todos os elementos da produção e como precisam ser colocados na ponta do lápis e considerados na hora de fechar as contas.
“O cara que entra na apicultura pelo dinheiro também sai pelo mesmo motivo”, afirma, citando um colega – parceiro tanto da associação quanto do ICAS -, conhecido como Zeca do Mel. Os dois concordam que, para permanecer na apicultura, há um requisito importantíssimo: “você tem que entrar porque você gosta.”
Eduardo está em Mato Grosso do Sul há treze anos e tem trinta caixas próprias, todas na região de Três Lagoas, e também fez muitas parcerias e colaborações por aqui: na época da Covid, trabalhou junto ao SENAR com assistência técnica, e também já foi presidente de uma associação de apicultores de Três Lagoas e região.
Foi em Mato Grosso do Sul que veio a conhecer mais sobre o tatu-canastra, um bicho raro que, antes, Eduardo só conhecia por nome. Acontece que o canastra, o maior tatu do mundo, às vezes pode causar prejuízos aos apicultores, quando recorre às crias das abelhas como fonte de alimentação. Apesar disso, Eduardo considera que não teve problemas sérios com o canastra: já teve incidentes com irara – outro animal que pode se aproveitar dos apiários, um parente dos furões que também é conhecido como papa-mel – e já encontrou caixas no chão, mas não é dos bichos que vem o verdadeiro prejuízo.
“Tem casos de gente que vem, rouba o apiário e faz parecer que foi o tatu canastra”, conta, e para essas figuras Eduardo tem um nome especial: “Essa espécie aí é o tatu-canalha!””, brinca.
A relação do apicultor com os animais silvestres é sempre de muito respeito e admiração: “Aqui é o ambiente deles. A partir do momento em que você está no ambiente deles, tem que achar um jeito de conviver”. A fauna silvestre está sempre presente nas visitas aos apiários: anta, ema, tamanduá e até onça-parda dão as graças, e Eduardo se lembra de cada encontro, descrevendo como uma onça-parda caminhou com graça e tranquilidade na paisagem do fim da tarde, o jeitão do tamanduá-bandeira ao atravessar a estrada, e até mesmo os pequenos marsupiais que vivem entre as caixas das abelhas e às vezes são surpreendidos pelo apicultor.
Mesmo em sua casa na cidade, Eduardo não perde a relação com a natureza: tem um casal de maritacas que mora na frente da casa bem arborizada, e sabe exatamente onde os canarinhos chocam todo ano.
“Tem gente que compra gaiola, eu não preciso de gaiola”, afirma, com orgulho, pois as aves o visitam ali mesmo.
Mas nem tudo é doce no mundo da produção de mel: entre os percalços, Eduardo cita dificuldades com a legislação, que, devido à burocracia, às vezes pode agir como um entrave na vida do pequeno produtor, atrasando o registro do produto ou a abertura de uma casa de mel: “o apicultor fica na mão do entreposto, ou pior, do atravessador, que extorque o produtor.” Ele acredita que, se houvesse uma legislação mais cessível para que o pequeno produtor pudesse trabalhar sem desembolsar tanto e ganhando um pouco mais, o Brasil poderia ser referência na produção de mel.
Também reclama da desunião de associações que, quando não caem na mão dos atravessadores, são muito regidas por interesses individuais: “Todo mundo quer saber: o que eu ganho com isso? Deveria ser para se associar, trabalhar junto, mas acaba sendo cada um por si.”
Apesar dessas dificuldades, Eduardo segue na apicultura, lembrando sempre de um ensinamento precioso da mãe: “estuda, trabalha e não mexe nas coisas dos outros”. Eduardo começou a trabalhar com quatorze anos de idade, e, hoje, aos 62, já dedicou quase metade da vida à apicultura e comercialização de produtos derivados da colmeia, um trabalho de muita dedicação e contemplação da natureza: “A gente tem orgulho do que faz, porque tudo o que a gente faz, faz direito.”
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.