Pesquisa acende alerta para os impactos da poluição em mamíferos terrestres ameaçados de extinção no Brasil
Minas Gerais – Um estudo recém-publicado na revista científica Environmental Research revelou um dado alarmante: todos os indivíduos de tatu-canastra (Priodontes maximus) amostrados no Parque Estadual do Rio Doce (MG) apresentavam contaminação por microplásticos e metais pesados. Esta é a primeira vez que esse tipo de poluição é registrada em fezes dessa espécie, considerada vulnerável à extinção.
Foram identificadas substâncias como chumbo, cromo e manganês, além de partículas plásticas como polietileno, polipropileno e PET. As amostras fecais foram coletadas em diferentes áreas do parque, revelando uma contaminação ampla e consistente.
O biólogo e pesquisador Lucas Barreto, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) e coautor do estudo, explica que a contaminação no “Vale do Aço”, região onde está localizado o parque, tem raízes históricas ligadas à mineração e ao beneficiamento de metais.
“É como se o solo e a água contaminados, somados ao descarte incorreto de resíduos plásticos, estivessem silenciosamente se acumulando na cadeia alimentar. O desastre de Mariana é o exemplo mais recente e trágico desse descaso com o meio ambiente”, destaca Barreto.
A pesquisa detectou 100% de presença de microplásticos e metais pesados nos indivíduos estudados — um dado extremamente preocupante para a conservação dessa espécie e de todo o ecossistema do parque.
Arnaud Desbiez, presidente do ICAS, lembra que o tatu-canastra é um animal escavador, que interage diretamente com o solo e se alimenta principalmente de formigas e cupins, o que o torna ainda mais vulnerável à ingestão acidental de partículas contaminantes.
“A baixa taxa de reprodução da espécie já torna sua sobrevivência um desafio. Agora, somamos a isso os efeitos ainda pouco conhecidos dessas toxinas, que podem comprometer a saúde, a fertilidade e até o comportamento dos animais”, ressalta Desbiez.
De acordo com o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e autor do estudo, Lucas Gonçalves Queiroz, pesquisas anteriores já encontraram microplásticos nas fezes de grandes mamíferos terrestres, como antas e elefantes. No entanto, esses estudos focaram em partículas maiores, com mais de 0,5 milímetro.
“Neste estudo analisamos partículas ainda menores, a partir de 0,1 milímetro, e verificamos que essas partículas menores são ainda mais predominantes, podendo representar mais da metade dos microplásticos encontrados,” explicou Queiroz.
A ingestão de microplásticos pode gerar efeitos tóxicos em mamíferos, prejudicando funções metabólicas, imunológicas e reprodutivas. Por isso, compreender como espécies ameaçadas, como o tatu-canastra, se relacionam com ambientes impactados é fundamental para nortear ações de conservação mais eficazes.
O estudo reforça a urgência de estratégias integradas para o controle da poluição e o monitoramento contínuo da fauna, mesmo em áreas legalmente protegidas.
“Não podemos tratar a poluição como um problema exclusivo de ambientes aquáticos ou urbanos. Esse estudo mostra que até mesmo animais silvestres, em unidades de conservação, estão sendo atingidos diretamente pelos resíduos da nossa própria atividade”, finaliza Barreto.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), com apoio do The Wildlife Conservation Network (WCN), Rufford Foundation, Whitley Fund for Nature e com o Apoio da Plataforma Semente através do Centro de Apoio Operacional de Meio Ambiente (CAOMA) e Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
Para acessar o artigo na íntegra envie um email para: contato@icasconservation.org.br