Iniciativa coordenada pelo ICAS convida moradores do Pantanal, Cerrado e áreas de transição a contribuir com informações sobre uma das espécies mais ameaçadas do país

O Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) lançou nesta quarta-feira (11) um questionário nacional para registrar ocorrências e ausências do tatu-bola (Tolypeutes matacus) no Brasil. A iniciativa tem como objetivo atualizar o mapa de distribuição da espécie no país e gerar informações essenciais para subsidiar o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tamanduá-bandeira, Tatu-canastra e Tatu-bola, que será coordenado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em maio de 2026.

A coleta de dados busca preencher uma das maiores lacunas para a conservação da espécie, que é saber exatamente onde o tatu-bola ainda ocorre, onde já não é mais encontrado e quais fatores podem explicar esses desaparecimentos regionais.

Arnaud Desbiez, presidente do ICAS, explica que, antes de qualquer estratégia de conservação, é fundamental saber onde a espécie ocorre e onde ela deixou de ocorrer. A ausência também é um dado extremamente valioso, porque pode ajudar a entender quais ameaças estão atuando em cada região.

“O tatu-bola é uma espécie noturna, com comportamento discreto. Estudos conduzidos no Brasil indicam que o animal permanece ativo, em média, entre cinco e seis horas por dia, concentrando a maior parte de sua atividade na primeira metade da noite, o que pode contribuir para a dificuldade de registros visuais”, disse o pesquisador.

Pesquisas também mostram diferenças importantes entre machos e fêmeas. Machos adultos apresentam maior massa corporal e áreas de vida mais amplas, enquanto fêmeas não compartilham suas áreas de vida com outras fêmeas, independentemente da idade. Já os machos podem ter sobreposição espacial tanto com outros machos quanto com fêmeas.

“É uma espécie com uma ecologia muito particular e ainda pouco conhecida. No Brasil, os primeiros estudos foram conduzidos há poucos anos, e ainda há enormes lacunas de informação. Isso torna qualquer dado de campo extremamente relevante”, destaca Desbiez.

Além disso, o tatu-bola possui uma característica única: é o único tatu capaz de se enrolar completamente, formando uma bola como estratégia de defesa. Há muitas confusões por parte do público com outras espécies de tatus, mas essa espécie pode ser diferenciada por esse comportamento.

O tatu-bola ocorre na Argentina, Paraguai e Bolívia, e o Brasil representa o limite norte de sua distribuição. Em território brasileiro, a espécie está presente apenas nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com registros associados principalmente ao Pantanal, às áreas de transição Pantanal–Cerrado e a regiões mais remotas, onde ainda há pouco monitoramento sistemático.

O presidente do ICAS, Arnaud Desbiez, reforça que o estudo trata exclusivamente do Tolypeutes matacus, espécie que ocorre nesses dois estados do Centro-Oeste. “É importante deixar claro que este trabalho não abrange o tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus), que é restrito ao Nordeste do Brasil. Estamos falando apenas da espécie presente no Pantanal e no Cerrado”, explica.

Segundo ele, essa distinção é fundamental para evitar confusões na coleta de dados e garantir que o mapeamento da distribuição seja preciso, contribuindo de forma efetiva para o planejamento das ações de conservação.

Embora existam estimativas de distribuição, muitas áreas nunca foram estudadas de forma detalhada, e há relatos de locais onde o tatu-bola existia no passado, mas deixou de ser observado após grandes eventos ambientais, como incêndios severos ou cheias históricas, a exemplo da grande cheia de 1974 no Pantanal.

“A gente escuta relatos de pessoas que viam o tatu-bola com frequência e que, depois de grandes incêndios ou mudanças ambientais, nunca mais voltaram a vê-lo. Esses relatos são fundamentais para entendermos possíveis extinções locais”, afirma Desbiez.

Conhecimento local é essencial para a ciência

O questionário surge em um momento crítico para a espécie. Em novembro do último ciclo de avaliação da Lista Vermelha Nacional, o tatu-bola sofreu um rápido agravamento de seu estado de conservação, passando de “Quase Ameaçado” para “Em Perigo”, um salto de duas categorias.

Essa mudança está diretamente associada aos incêndios recorrentes após 2020, que afetaram profundamente o Pantanal e áreas do Cerrado. Estima-se que mais de 50% da área de ocorrência da espécie em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul tenha sido queimada nos últimos anos, o que levanta a hipótese de extinções locais.

“Os incêndios mudaram completamente o cenário para o tatu-bola. Em algumas regiões, existe a possibilidade real de que a espécie tenha desaparecido localmente, e é justamente isso que precisamos investigar com mais cuidado”, ressalta o presidente do ICAS.

De acordo com a pesquisadora de coexistência humano-fauna do ICAS, Mariana Catapani, o questionário foi pensado para alcançar não só pesquisadores, mas também pessoas que vivem e trabalham no campo, como peões, brigadistas, proprietários rurais, cozinheiras, guias, técnicos e moradores do Pantanal, do Cerrado e das áreas de transição. O objetivo é valorizar o conhecimento local, muitas vezes não registrado em artigos científicos, mas fundamental para compreender a realidade da espécie.

“Quando a ciência diz que não sabe algo, isso não significa que ninguém saiba. Muitas pessoas têm informações valiosas, mas que nunca foram registradas. Esse questionário é uma forma de transformar esse conhecimento em dados que possam orientar ações reais de conservação”, explica Catapani.

Qualquer pessoa pode participar, mesmo que nunca tenha visto o tatu-bola, desde que possa informar a presença ou ausência da espécie em locais onde antes ela ocorria ou onde seria esperado encontrá-la.

Um ponto essencial do questionário é a identificação correta do tatu-bola, já que ele é frequentemente confundido com o tatu-rabo-mole (Cabassous unicinctus).

O tatu-bola (Tolypeutes matacus) mede cerca de 30 cm de comprimento, apresenta coloração marrom clara e, geralmente, três cintas móveis. Ele pertence ao gênero Tolypeutes, que reúne as únicas espécies de tatus capazes de se enrolar completamente, assumindo a forma de bola como estratégia de defesa. Diferentemente de outras espécies, o tatu-bola não cava túneis como principal estratégia de proteção.

Já o tatu-rabo-mole, especialmente Cabassous unicinctus squamicaudis, é maior (35–45 cm), apresenta coloração acinzentada, possui cerca de 11 cintas móveis e não é capaz de se enrolar completamente. Quando ameaçado, cava rapidamente o solo, formando túneis cilíndricos e montes de terra solta semelhantes a formigueiros — comportamento que o diferencia claramente do tatu-bola.

“É muito importante olhar com atenção as imagens e descrições antes de responder. A confusão entre essas espécies é comum e pode comprometer os dados se não houver cuidado”, alerta a pesquisadora.

As informações coletadas serão analisadas por um grupo de trabalho coordenado pelo ICMBio e servirão de base para a definição de ações prioritárias de conservação, além de indicar onde são necessárias novas pesquisas, monitoramento, proteção de habitat ou ações emergenciais.

O ICAS participa dessa iniciativa por já atuar no Pantanal e em áreas de transição com outros programas de conservação e por ter integrado o processo de avaliação da Lista Vermelha da espécie.

“Esse é o primeiro passo. A partir do mapa de distribuição e das informações sobre presença e ausência, será possível definir quais ações são urgentes e quem pode contribuir com cada uma delas. O mais importante agora é reunir essas informações básicas”, conclui Desbiez.

Como participar

O questionário está aberto ao público e pode ser respondido por qualquer pessoa que tenha informações sobre o tatu-bola em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em áreas de Pantanal, Cerrado e transição. Além de responder, o ICAS pede o apoio da imprensa e da sociedade para divulgar a iniciativa e ampliar o alcance do levantamento.

“Se você já viu um tatu-bola, conhece alguém que viu ou tem informações sobre locais onde ele deixou de ocorrer, entre em contato conosco. Cada registro conta”, reforça Mariana.

Os registros podem ser enviados por meio do questionário online, disponível em:
https://docs.google.com/forms/d/1Tb7GxNv167iLR4rGDLpfO42rUdzQI3zQY3Sxnpdwi88/edit

Também é possível contribuir entrando em contato pelo e-mail:
registros.tatubola@gmail.com

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