A maior fábrica de celulose do mundo e o maior tatu do planeta em uma aliança de gigantes pela conservação do Cerrado.
O Mato Grosso do Sul é destaque na produção de celulose do Brasil e, ao mesmo tempo, abriga uma das espécies mais raras e emblemáticas da nossa biodiversidade: o tatu-canastra (Priodontes maximus). Conhecido como o gigante da biodiversidade e considerado um verdadeiro engenheiro do ecossistema, ele cumpre um papel ecológico único: estudos mostram que mais de 100 espécies de animais já foram registradas utilizando suas tocas como abrigo, proteção ou fonte de alimento.
Ao longo de mais de uma década de pesquisa, os estudos mostram que essas cavidades subterrâneas são muito mais do que simples refúgios. Elas mantêm uma temperatura estável de cerca de 24 °C durante todo o ano, funcionando como micro-habitats essenciais diante das mudanças climáticas e oferecendo refúgio térmico para inúmeras espécies da fauna brasileira. Por essa razão tem quem chama o tatu canastra de engenheiro do Clima!
Com o objetivo de compreender como esse gigante utiliza paisagens compostas por fragmentos de Cerrado nativo e plantações de eucalipto, o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), com o apoio da Suzano, lançou em 2024 o projeto Canastras e Eucaliptos. A iniciativa busca unir ciência, produção e comunidades locais em prol da conservação da biodiversidade.
De acordo com o presidente do ICAS, Arnaud Desbiez, dois indivíduos já foram monitorados por meio de telemetria GPS, o que permitiu estudar seus deslocamentos e áreas de uso. A pesquisa também utiliza 33 armadilhas fotográficas equipadas com sensores de movimento, que até o momento registraram 34 espécies de fauna associadas às áreas estudadas.
“O tatu-canastra é uma espécie-chave para o equilíbrio ecológico do Cerrado. Suas tocas, que podem atingir 5 metros de profundidade, servem de abrigo para uma grande diversidade de animais, tornando-o essencial para a manutenção da vida nesse bioma. Proteger o tatu-canastra é atuar na conservação de ecossistemas inteiros, já que sua presença indica um ambiente saudável e funcional”, explica Desbiez.
O projeto mostra como a ciência pode orientar práticas responsáveis de uso do território, promovendo um modelo de desenvolvimento que concilia produção, conservação da biodiversidade e engajamento das comunidades locais. A coordenadora de Meio Ambiente da Suzano, Milena Moreira, reforça que a iniciativa reflete o compromisso da empresa com a sustentabilidade e a geração de conhecimento.
“Produzir e conservar fazem parte da mesma caminhada. O projeto mostra que é possível conciliar atividade florestal com a preservação da biodiversidade, criando um equilíbrio que beneficia tanto a natureza quanto as pessoas”.
Essas descobertas orientam ações práticas, como a criação de corredores de fauna e a definição de áreas prioritárias de proteção. “Observar o comportamento do tatu-canastra nos ajuda a planejar operações de forma mais sustentável e a melhorar o manejo das florestas”, completa Milena.
Integração com a apicultura
Outro destaque é a parceria com apicultores locais por meio do projeto Canastras e Colmeias, também do ICAS, que incentiva a convivência harmoniosa entre apicultores e tatus-canastra. Embora essa espécie tenha uma dieta natural composta principalmente por cupins e formigas, a fragmentação do habitat e a consequente escassez desses insetos em algumas regiões a levam, ocasionalmente, a buscar larvas de abelhas como fonte alternativa de alimento.
Entre os 43 apicultores entrevistados pelos pesquisadores do projeto, 72% utilizam áreas da Suzano para instalar seus apiários e mais de 80% já adotam medidas de mitigação, como cavaletes elevados e caixas parafusadas, reduzindo possíveis danos às colmeias. Até o momento, sete produtores que atuam em áreas da empresa receberam o Selo Amigo do Tatu-canastra, certificação que reconhece e valoriza quem alia a produção de mel à conservação ambiental.
A iniciativa também distribui rainhas selecionadas de alta produtividade, contribuindo para o fortalecimento das colmeias, o aumento da produção e, consequentemente, da renda das famílias envolvidas — uma demonstração prática de que é possível produzir e conservar ao mesmo tempo.
Economia criativa e protagonismo feminino
Além da pesquisa científica e do trabalho com apicultores, o projeto também aposta na força da economia criativa como ferramenta de conservação e transformação social. Em Ribas do Rio Pardo (MS), foram promovidas oficinas nos assentamentos Mutum e Avaré, reunindo 32 participantes.
As integrantes do grupo Artesãs em Ação aprenderam técnicas de pintura em tecido, retratando o tatu-canastra e o tamanduá-bandeira — duas espécies emblemáticas e ameaçadas do Cerrado — em peças de artesanato. Também participaram de oficinas de fotografia e mídias sociais, ferramentas essenciais para divulgar seus produtos, fortalecer suas marcas e compartilhar suas histórias.
A artesã Naielle Godoi conta que o contato com o projeto trouxe inspiração e novas oportunidades. Para ela, unir cultura, trabalho coletivo e conservação é um caminho para o futuro.
“Quando pintei o tatu-canastra pela primeira vez, senti que estava registrando um pedaço da nossa terra. Desde então, passei a produzir todos os dias. A pintura virou um hábito quase terapêutico e já representa uma renda extra para minha família”, relata a artesã.
Além de gerar oportunidades, essa integração inspira aprendizado, fortalece laços comunitários e desperta a consciência ambiental em toda a família das artesãs. São atividades que transformam saberes em ação e cultivam, nas novas gerações, o valor de proteger a natureza.
A pesquisadora e doutora em Economia do Desenvolvimento, Eliana Lambert, explica que a economia criativa é um vetor essencial para o desenvolvimento local de forma inclusiva.
“O desenvolvimento, em uma perspectiva sustentável, envolve mudanças qualitativas e duradouras nas dimensões econômica, social, cultural e ambiental. A economia criativa é uma estratégia que valoriza o conhecimento local e o capital cultural, fortalecendo pequenos negócios e promovendo inclusão econômica, justiça social e conservação ambiental.”
Ao comentar sobre o Selo Amigo do Tatu-canastra, criado pelo Projeto Canastras e Colmeias para apoiar apicultores na adoção de medidas de mitigação não letais ao tatu-canastra e eficientes na proteção das colmeias para impedir ataques em busca de larvas, a economista destaca o papel fundamental da iniciativa na consolidação de uma economia verdadeiramente socioambiental. Ela reforça ainda a importância dos produtos certificados para estimular um consumo mais consciente, capaz de valorizar práticas sustentáveis e comunidades que convivem de forma harmoniosa com a fauna local.
“Produtos com certificação de sustentabilidade promovem mudanças no comportamento do consumidor e cumprem um papel educativo. Eles colaboram com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como saúde e bem-estar, consumo responsável e vida terrestre. É um exemplo concreto de como economia verde, ciência e sociedade podem caminhar juntas,” reiterou Eliana.
O desenvolvimento econômico é essencial para o fortalecimento da sociedade, mas é igualmente importante destacar que a sustentabilidade deve caminhar lado a lado com o progresso. Somente assim é possível garantir que o crescimento venha acompanhado de equilíbrio ambiental e inclusão social.
A iniciativa integra diferentes dimensões de forma prática e inspiradora. De um lado, produz e aplica dados científicos que orientam políticas públicas e aprimoram o manejo responsável do território. De outro, fortalece a renda e a valorização cultural de apicultores e artesãs, que encontram na convivência harmônica com a fauna e na economia criativa novas oportunidades de crescimento e reconhecimento.
Mais do que proteger o tatu-canastra, as ações do ICAS demonstram que produção e conservação podem coexistir. O Mato Grosso do Sul mostra ao país que é possível unir ciência, comunidades e indústria em prol de um mesmo propósito: promover o desenvolvimento sustentável, valorizar as pessoas e conservar a nossa biodiversidade.