Desde criança, Kel já sonhava com as abelhas: o padrinho era apicultor, e ela acompanhava e ajudava na lida e no campo. Nascida e criada em Três Lagoas, sempre teve uma relação de proximidade com a natureza. A propriedade da família, pelo avô na época em que o trem ainda carregava passageiros pelo interior de Mato Grosso do Sul, é cercada por áreas de Cerrado e campos de guavira; agraciada com uma diversidade de aves e bichos que vêm visitar as árvores frutíferas plantadas no quintal.

Mesmo assim, essas raízes profundas encontraram percalços para germinar: “Cresci ouvindo que mulher não podia ser apicultora”, ela relembra. Diziam que mulher não tem força, que não tem jeito pro negócio. Kel cresceu e foi trabalhar com outras coisas – para empresas, para outras pessoas, dirigindo por todo o sul e sudeste do país. Por um tempo, se afastou de Mato Grosso do Sul e foi morar em Porto Alegre, mas nunca deixou o sonho para trás. Foi quando se mudou em definitivo para a propriedade da família, uma chácara nos entornos da cidade, que tomou uma decisão resoluta: fazer o que sempre quis. 

A partir daí, Kel abraçou a vocação e começou a investir na apicultura. Fez cursos, foi atrás das caixas, se profissionalizou. Hoje, já trabalha com mel há mais de sete anos, com dois apiários na chácara e mais um que administra junto a um amigo e parceiro da profissão. O diferencial dos amigos, Kel conta, é o manejo: trabalham sempre com muito respeito pelo ritmo das abelhas, em harmonia com as colmeias. 

“Já fui ajudar em outros apiários e fiquei horrorizada” relata. Na pressa, há apicultores que acabam por estressar as abelhas e matam muitas operárias durante a colheita do mel, por exemplo. Apesar dessas pequenas perdas fazerem parte do ofício, Kelya Marta prefere atuar no tempo das abelhas: não bate caixa, não usa muita fumaça. Por vezes, passa o dia todo no apiário, mas garante que o manejo cuidadoso faz toda a diferença: ao cuidar com carinho de cada colmeia, Kel garante uma maior produtividade por caixa. É um trabalho de muita atenção e sincronia com a natureza, e a apicultura acredita que é essa a razão de nunca ter tido problema com o tatu: desde o início, mantém as caixas fora do alcance do animal, em cavaletes altos, e trabalha de cima da caminhonete. Assim, o canastra, que é o maior tatu do mundo e tem uma dieta obrigatoriamente insetívora, não tem acesso às crias das abelhas. Tranquilo, ele compartilha as áreas de reserva com os apiários de Kelya, se alimentando das suas presas naturais, as formigas e cupins. 

Apesar disso, ver o tatu pessoalmente ainda é um sonho que Kel gostaria de realizar: conhece o bicho pelas tocas, pelos rastros e notícias, mas nunca deu de cara com o animal.  Acontece que o canastra é tímido, com hábitos noturnos, e raramente sai de casa durante o dia, de modo que não é fácil de ver. Talvez com as câmeras do projeto Canastras e Colmeias, Kelya possa, no futuro, acompanhar as aventuras noturnas do tatu, numa espécie de Big Brother do Cerrado. Afinal, esse foi um dos principais interesses de Kelya no projeto: sem pendências para resolver com o canastra, ela se aproximou do ICAS por meio de uma reunião que fez na própria chácara, chamando apicultores e conservacionistas para discutir a ameaça do abuso de agrotóxicos em monoculturas que avançam sobre o Cerrado e os impactos disso na vida dos apicultores. 

Com o apoio da filha Kamyla, que é advogada, tem procurado instruir pequenos apicultores prejudicados pelos gigantes da indústria a lutar por seus direitos de viver e produzir sem veneno. Além disso, está sempre procurando parcerias com instituições de educação e conservação para trazer maior consciência sobre a importância do Cerrado. “O apicultor tem que se unir, precisa ter voz para mostrar a importância da sua atividade”, afirma. Cheia de paciência com as abelhas, também não lhe falta persistência e coragem para lutar por essa profissão que tem tudo a ver com a conservação ambiental.

 Hoje, se perguntada se ainda ouve que mulher não pode ser apicultora, ela ri: “se pensam, não têm mais coragem de falar”. Assim, de mãos dadas com a biodiversidade, Kelya Marta segue produzindo mel e trabalhando pela continuidade de um bioma que é um verdadeiro tesouro nacional, cheio de flores e bichos que não ocorrem em mais nenhum lugar do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *