Há quase 30 anos, Odair dedica sua formação e sua vida à recuperação de dependentes químicos e alcoólatras. Na chácara em Campo Grande onde atua o Instituto Peniel, os internos trabalham em contato com a natureza, adquirem habilidades práticas que os preparam para o mercado de trabalho, e podem se recuperar física e espiritualmente do peso que é a dependência. Essa história começou em outro estado: Odair nasceu no interior de Minas Gerais, em Senador Firmino. A fazenda tinha até nome inspirador: Faz. Boa Esperança, e ele conta que veio ao mundo pelas mãos de uma parteira, Alice, que mais tarde se tornou sua madrinha. Foi ali que viveu até os 12 anos de idade, quando, com os irmãos já crescidos e trabalhando na capital, os pais de Odair também decidiram tentar a vida na cidade grande. 

Já com vinte anos, Odair começou a namorar uma menina chamada Amanda. Os pais dela eram da igreja, e foi assim que ele começou a frequentar o instituto. “O namoro foi só um pretexto para conhecer a instituição”, conta. A menina terminou com ele, mas o fim do relacionamento foi providência: Odair permaneceu na igreja, que logo se mostrou um verdadeiro compromisso para a vida toda. Anos depois, ele encontrou o amor de verdade e se casou com Juliana, com quem compartilha a vida há dezoito anos. 

Na instituição Peniel, ele se dedicou à formação ministerial, por longos e mais longos anos de treinamento. Foram nove anos de estudo para ingressar o ministério oficialmente, e depois da formação teórica veio ainda um processo transcultural para conhecer o processo da recuperação daqueles que lutam contra o vício. Odair conviveu com os internos, presenciou as dificuldades, as crises. Foi por meio de um enorme compromisso com a vida e com as marginalidades, tanto do próprio Odair quanto do próprio instituto, que ele chegou à reta final da formação, que definitivamente não foi o fim dessa jornada: de estagiário na Serra da Moeda, Odair foi indicado para trabalhar em Campo Grande, onde se tornou coordenador interno do programa de recuperação. 

Hoje, ele encabeça o projeto, onde trabalha quase em tempo integral. Na chácara, além das atividades para fortalecer o espírito, os internos trabalham com marcenaria, serralheria, produção de queijos, e, mais recentemente, apicultura. As abelhas demoraram para entrar nessa história: há dois anos, um vizinho do instituto teve um problema com suas cercas e pediu um pouco de madeira a Odair. O pastor foi acompanhar os reparos e se pôs a conversar com o funcionário do vizinho. 

Foi ali que surgiu uma ideia: na entrada da chácara ao lado, haviam placas e anúncios da produção de mel, portanto Odair estava ciente de que o tal vizinho era apicultor. A propriedade do instituto Peniel tem uma boa reserva, e sempre teve como objetivo ser autossuficiente. Por que então não se aventurar com as abelhas? Foi então que surgiu o tal vizinho, num enorme macacão amarelo que o fazia parecer um astronauta. Contou muito da sua história e se propôs a ajudar. 

“Parece que Deus ouviu minha conversa com o funcionário”, relembra Odair.

Foi outro processo: “abri o coração para aprender”, o pastor conta. O apicultor ajudou com cinco caixas, e Odair, com mais cinco. Fez cursos de manejo, de produção, e assim foi caminhando na apicultura. Mas não parou por aí.

Acontece que esse vizinho era o Adriano Adames, o parceiro mais antigo do ICAS e do Canastras e Colmeias. Na época, o projeto Canastras estava crescendo e procurava alternativas ao selo Amigo do Tatu que beneficiasse o pequeno produtor de mel. Estava surgindo a ideia do Projeto Rainhas, que tinha como objetivo doar abelhas-rainha para apicultores que, por ação do tatu-canastra ou pressões ambientais, houvessem perdido muitas caixas de abelha. Afinal de contas, com uma rainha de boa genética, é possível revitalizar uma colmeia improdutiva ou até transformar uma única colmeia em duas, multiplicando a produção. O Adriano, além de mel, também produz rainhas – e dá cursos de como produzi-las. Márcio Donha,  apicultor e funcionário do ICAS, já estava se aproximando da produção de rainhas, e se tornou instrutor auxiliar nos cursos do Adriano. Foi assim, do encontro fortuito de três partes, que nasceu o Projeto Rainhas: O ICAS precisava de um apiário focado na produção dessas abelhas. Pastor Odair tinha o espaço, tinha a determinação e também muita vontade de trabalhar em união. 

Hoje, o pastor produz mel e a chácara do Instituto Peniel também abriga o apiário de produção do Projeto Rainhas. E os internos vão aprendendo e se profissionalizando cada vez mais, o que garante um futuro quando estiverem completamente recuperados: a pessoa que produz rainhas consegue se sustentar apenas com a produção de rainhas, e o projeto do ICAS trouxe a oportunidade de trabalhar com esse processo, muitas vezes bastante delicado, na prática. 

Além que esse valor pragmático, porém, as abelhas trouxeram muito mais para a vida do pastor Odair e para a instituição: “as abelhas me ensinaram a lidar com a natureza, com as diferenças. Muita gente tem medo das abelhas porque conhece só pela picada, mas a abelha é a ponte entre o homem e a natureza”, Odair conta. 

Já o tatu-canastra, ele ainda não conhece ao vivo e em cores: foi saber do bichão pela primeira vez através do folder do ICAS, e por meio do Adriano conheceu Arnaud Desbiez, presidente do Instituto de Conservação de Animais Silvestres. Ouviu ele falar sobre o tatu e ficou admirado: “Eu aprendi a amar um animal que eu nem conhecia”, conta. 

Dessa forma, Odair se tornou um parceiro importante do projeto Canastras e Colmeias, e os planos não param por aí. No futuro, as duas instituições pretendem unir esforços para construir uma casa de cera na chácara do Instituto Peniel. A cera, essencial para as colmeias das abelhas, também é uma necessidade dos pequenos apicultores: é caro comprar cera de boa qualidade, e purificar cera artesanalmente é um processo árduo em tempo e esforço. Com uma casa de cera, o ICAS poderia processar a cera de pequenos produtores, coletando a cera impura e devolvendo-a já purificada e alveolada sem custos para o pequeno produtor, fortalecendo a apicultura sustentável; ao mesmo passo em que Odair teria como oferecer aos internos mais um ofício para enriquecer seu projeto de recuperação. Dessa forma, a conservação da biodiversidade e da dignidade humana andariam lado a lado, seguindo o exemplo das abelhas e construindo pontes para um futuro mais gentil, equilibrado e biodiverso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *