Da escuridão do analfabetismo à Voz Áurea do mel: A logomarca do apiário de Elizeu, um apicultor que trabalha no município de Três Lagoas, é uma árvore seringueira que estampa os rótulos de mel do apiário batizado de Voz Áurea, nome e símbolo que carregam uma rica história. 

 

Nascido e crescido no interior, Elizeu conta que precisou trabalhar desde muito cedo, e, até os vinte anos de idade, não sabia ler ou escrever. “O analfabetismo é a maior escuridão que uma pessoa pode viver”, conta, se referindo à falta de acessibilidade que assombra aqueles que não sabem ler: “sem conhecimento você não é nada”. Em 22 de setembro de 1998, porém, foi trabalhar em uma fazenda onde o patrão, Roberto, garantiu que pagaria qualquer curso que seus funcionários quisessem fazer. 

 

Elizeu, apaixonado por fotografia, foi fazer esse curso e não sabia ler. Daí, veio a determinação para se alfabetizar. Hoje, orgulhosamente se declara fã e leitor de Ariano Suassuna, compartilhando com o escritor o amor pelo bom humor e pela capacidade de dispersar as agruras da vida com um sorriso no rosto. A história com o mel começou nessa mesma fazenda – em que Elizeu trabalha até hoje – onde um conhecido do patrão mantinha colmeias. Elizeu passou a trabalhar com o apicultor, mas não sabia muita coisa e logo resolveu fazer um curso “para não ser a pessoa que não sabe nada da roda de conversa”, conta. 

 

“No começo não gostava muito não”, confessa, mas foi num curso do SENAR que ele começou a se encantar com a animação do professor, e, por extensão, pela apicultura. “Duvido alguém levar uma picada do sangue azul da abelha e esquecer”, era algo que o instrutor costumava falar, e assim foi. O entusiasmo pelas abelhas contagiou Elizeu, que logo comprou caixas e começou com duas colônias. O plano, inicialmente, era usar o dinheiro para pagar as férias da família, mas ele foi aumentando as caixas conforme o amor pela profissão crescia. 

 

“Abelha é tão bom que de vez em quando ela dá dinheiro”, diz hoje, com suas mais de cento e cinquenta colmeias. 

 

Ao abraçar o negócio, foram surgindo os problemas. Ele conta que, na época, o tatu-canastra era considerado um inimigo – e ainda hoje tem gente vê o bicho assim, e diz para colocar veneno, porque o cavalete é caro. Elizeu rebate como um verdadeiro aliado do tatu: “É, o cavalete é caro, mas você sabe de onde veio esse bicho? É um bicho raro, diferente, quase lá da época dos dinossauros. Será no futuro que seus filhos e netos vão ficar contentes de ver esse bicho só empalhado, em museu, sabendo que você ajudou a acabar com ele?”. Com muito orgulho, afirma já ter mudado pelo menos duas opiniões, só conversando sobre o tatu-canastra. 

 

“Pra mim, o importante é preservar e conscientizar, porque esses bichinhos, como o tatu-canastra e o tamanduá, são o termômetro do que está errado no ambiente, qualquer coisa vai afetar eles antes de prejudicar a gente”, afirma, apontando os grandes insetívoros do cerrado como bioindicadores, cuja extinção no ambiente pode sinalizar alguma ameaça à vida humana. 

 

É sempre assim, com muita consciência e valorizando o meio ambiente que Elizeu trabalha. Trabalha numa fazenda bem preservada, na reserva do Rio Moeda, e vive de olho nos rastros e tocas de tatu-canastra. “Ano passado eu vi pegada de filhote junto com a mãe” conta, com um sorriso no rosto. Na própria casa, fez um vídeo raro: um tatu de pequeno porte e orelhas compridas, muito parecido com o tatu-galinha, mas que é um animal de registros escassos para o Cerrado de Mato Grosso do Sul, tendo sido documentado na região pelo ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) somente em 2024, com a foto de uma armadilha fotográfica e análise de DNA de um animal morto na rodovia. Elizeu foi muito mais sortudo: registrou o bicho no próprio quintal, e conta que o animal não estava nada tímido, e chegou a passar por baixo das suas pernas. 

 

O amor pela natureza, ao que parece, é coisa de família: “meu pai era apaixonado por cascavel, graças a ele nunca matei cobra”, conta, explicando que o pai costumava manter as cobras por perto, em galpões, para controlar ratos. Hoje Elizeu até conta com a ajuda das caninanas do sítio para controlar os morcegos que fazem ninho no forro. 

 

Sítio, aliás, que tem um nome muito importante: Arca de Noel, em homenagem ao pai de Elizeu. O apiário, com o nome poético de Voz Áurea, é uma homenagem à mãe Isaura, e a seringueira do rótulo foi desenhada pela filha de Elizeu. 

 

“Eu quis a seringueira porque é uma árvore socialmente justa. Ela mantém o homem do campo no campo e é muito importante para a agricultura familiar”, conta, mas o logo trouxe sua própria surpresa: na casa de mel, Eliseu tem uma figueira-brava que foi plantada pelo falecido pai e abraçou a construção. Se tivesse que escolher entre manter a árvore e a casa de mel, Elizeu conta que manteria a árvore, mas a construção foi avaliada pela IAGRO e lá a figueira permaneceu. 

 

Hoje, na seringueira, Elizeu vê também uma figueira-brava, conectando presente, passado, e toda a família com as suas raízes. A esposa, Antônia, também faz parte dessa tradição: professora, trabalha com abelhas melíponas, e fez até um curso no SENAR, passando por toda a dificuldade que é manter as abelhas nativas sem ferrão vivas. Professora, leva caixinhas pedagógicas nas escolas, para a alegria da criançada. Elizeu, que trabalha com a abelha Apis, gostaria de construir uma caixa educativa para suas próprias abelhas, mas está planejando um modelo mais fechado e resistente – afinal de contas, são abelhas com ferrão. 

 

Se enfrenta problemas com o preço do mel, que é baixo para o produtor por estar nas mãos de um ou dois compradores grandes, Elizeu tem esperança para o futuro: “o que está melhorando é a consciência das pessoas, que vão deixando de consumir só como remédio e vão passando a ver como alimento”, conta, mas diz também que o preço nas prateleiras precisa melhorar: para o pai de família, pois o mel ainda é muito caro se comparado ao quilo de açúcar. E assim, com uma história tão profunda quanto as raízes de uma figueira-brava, Elizeu segue na apicultura. 

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